Profissionais da linha de frente fazem balanço de um ano de pandemia

Cidade já registrou cerca de 9,2 mil casos de Covid-19; mais de 125 pessoas não resistiram às complicações

Passados quase 13 meses desde a confirmação oficial do primeiro caso de Covid-19 em Lençóis Paulista, no dia 29 de março de 2020, a pandemia do novo coronavírus ganha contornos cada vez mais preocupantes, com uma segunda onda ocasionada pela circulação de mutações do vírus causando efeitos devastadores na sociedade. Mesmo com os esforços das autoridades para conter o avanço do contágio, cerca de 9,2 mil pessoas já foram vitimadas pela doença, mais de 125 de forma fatal.

Talvez nem mesmo os mais pessimistas se arriscariam a dizer, no início do ano passado, que a situação chegaria ao ponto em que chegou, pelo menos não em pequenos centros urbanos, que, distantes dos problemas de superpopulação e crescimento desordenado, na maioria das vezes, contam com uma satisfatória estrutura de serviços públicos, sobretudo na área da Saúde. Porém, a pandemia mostrou a todos os descrentes que a falta de cuidado, responsabilidade e bom senso pode causar danos irreparáveis.

Confrontando a postura negacionista de boa parte da população, de certo modo incentivada por muitos governantes, entre eles o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o alerta que especialistas da área faziam desde que a pandemia teve seus primeiros capítulos no país, em fevereiro do ano passado, se mostrou mais do que coerente. Prova disso foi o caos instaurado na rede hospitalar, que chegou ao colapso em diversas localidades, ocasionando a morte de inúmeros pacientes.

Inserida neste contexto, Lençóis Paulista enfrentou tempos sombrios no mês passado, com o número de casos disparando acentuadamente, ocasionando superlotação no PAC-19 (Pronto Atendimento à Covid-19), montado com apoio da iniciativa privada, principalmente da empresa Bracell, que custeou as obras e forneceu equipamentos para a implantação de alas de enfermaria e UTI (Unidade de Terapia Intensiva) no espaço que abrigará o futuro Centro de Hemodiálise, no Hospital Nossa Senhora da Piedade.

Restrições mostram resultado, mas momento pede atenção

CAUTELA – Ricardo Conti Barbeiro alerta que cenário ainda é crítico (Foto: Diculgação)

O principal drama das últimas semanas foi o desabastecimento dos estoques de insumos e medicamentos, principalmente os que incluem o chamado kit intubação, indispensáveis para o tratamento adequado de pacientes com quadros clínicos mais agravados. A Justiça chegou a determinar, sob pena de aplicação de multa de R$ 3 milhões, que o Governo do Estado de São Paulo garantisse a reposição ou transferisse pacientes da cidade para hospitais de referência da região, mas a decisão foi derrubada.

De acordo com Ricardo Conti Barbeiro, secretário de Saúde do município, depois de passar vários dias com o estoque suficiente para atender a demanda de poucas horas e precisar recorrer a outras cidades da região diante da ausência de medidas efetivas de outras esferas governamentais, houve uma ligeira melhora da situação. Segundo ele, a disponibilidade ainda está longe de ser considerada ideal, mas remessas de medicamentos e insumos têm chegado com mais frequência.

“Recebemos um carregamento nesta semana e conseguimos ganhar um fôlego nessa questão, mas, como o consumo é muito alto, temos o suficiente para, no máximo, 10 dias. A luta é contínua para garantir que não falte nada e estamos constantemente em contato com os Governo Federal e o Governo do Estado”, explica o secretário, que reforça que o aumento das restrições promovido nas últimas semanas ajudou a aliviar a pressão sobre a rede hospitalar, mas alerta que o cenário ainda é crítico.

“As medidas de contenção adotadas em Lençóis Paulista deram muito certo, mas se não seguirmos as recomendações das autoridades sanitárias, os casos vão voltar a aumentar e teremos que recuar novamente. A Covid-19 não foi embora, pelo contrário. As variantes que estão circulando são muito mais perigosas e colocam em risco todo o sistema de Saúde. Por isso, não podemos descansar enquanto não tivermos uma estabilização dos casos e ainda estamos distantes disso”, comenta Barbeiro.

Superlotado, PAC-19 chegou a ter 24 pacientes intubados

MAIS GRAVES – Dr. Antonio Celso Barros Filho diz que mutações do vírus são mais agressivas (Foto: Divulgação)

A adoção de medidas mais rígidas de restrição nas últimas semanas, como já citado, tem resultado na queda do número de infecções pelo novo coronavírus, o que também reflete na diminuição dos casos graves e internações. Mas a aparente estabilização, para os profissionais da área, não deve ser vista como motivo para ignorar as medidas que visam a prevenção ao contágio, principalmente pela nova realidade trazida pela circulação de variantes do vírus ‘original’, que deu início à pandemia.

Na linha de frente desde o registro do primeiro caso em Lençóis Paulista, tratando os pacientes internados na UTI do PAC-19, Dr. Antonio Celso Barros Filho, diretor técnico do Hospital Piedade, revela que no pico de casos, no mês passado, chegou a ter 80 pacientes internados, 24 intubados simultaneamente. Além da mudança no perfil dos pacientes, que são jovens e sem comorbidades, houve uma grande mudança no perfil da própria doença, o que inspira cuidado.

“O que vemos hoje é totalmente diferente do que víamos no início. A doença acometia o paciente de maneira diferente. Estamos com quadros mais agressivos, principalmente em jovens, que apresentam lesões pulmonares mais graves, hipoxemia (baixa concentração de oxigênio no sangue) e resposta inflamatória muito intensa. Os sintomas evoluem de maneira rápida e, de repente, o paciente entra em insuficiência respiratória e precisa ser intubado. Isso acontece com muita frequência”, relata.

Os efeitos desta ‘nova pandemia’, segundo o médico, também têm sido devastadores nos profissionais que atuam no enfrentamento. “Não conhecíamos nada sobre a doença e tivemos que aprender a duras penas, no dia a dia. Quando tudo parecia estabilizado, os casos começaram a aumentar novamente. Está sendo um período muito desgastante para todo mundo, especialmente para nós, da Saúde. Temos visto muitos óbitos, escassez de medicamentos. Está muito complicado”, lamenta.

“Não podemos desmobilizar os serviços”, diz Dr. Norberto

NÃO ACABOU – Dr. Norberto Pompermayer acredita em uma terceira onda da pandemia (Foto: Divulgação)

A queda no número de casos de Covid-19 nas últimas semanas e a consequente redução da quantidade de pacientes que desenvolvem quadros mais graves de infecção e necessitam de internação em leitos de enfermaria ou até mesmo de UTI está longe de significar que a pandemia está perdendo força. O presidente do Comitê de Enfrentamento à Covid-19, Dr. Norberto Pompermayer, alerta, inclusive, sobre a necessidade de manter a retaguarda, mesmo que o cenário seja de queda.

“O aumento no número de casos obrigou uma profunda mudança na estrutura de enfrentamento com apoio da iniciativa privada. Embora o número de casos tenha caído, é preciso manter a prontidão. Não podemos abrir mão das conquistas que tivemos, nem em termos de equipamentos, nem de recursos humanos. Existe uma tendência, por parte de gestores cansados de investir e de ter custos altos, mas não podemos desmobilizar os serviços. Isso vai oferecer um risco muito grande à população”, pontua.

Indo mais fundo na questão, o médico destaca que, diferentemente do que já se observou em outros casos, as mutações do vírus, como a variante de Manaus, têm se mostrado mais nocivas, com maior potencial de contaminação e maior capacidade de causar complicações nos pacientes, o que sugere cautela ao projetar um cenário futuro, sobretudo diante da grande possibilidade de que haja uma terceira onda, o que, por exemplo, já tem acontecido em países da Europa.

“Devem ocorrer novas ondas, esperamos que em menor intensidade, mas não dá para saber, pois trata-se de uma doença que ainda não conhecemos a fundo. No auge da primeira onda, registramos 313 casos em uma semana, nesta, chegamos a 798. No ano passado, passamos três semanas entre subida e descida, agora tivemos oito semanas consecutivas, o que trouxe mais desgaste às equipes de saúde e ao serviço hospitalar. Estamos longe da normalização e teremos que aprender a conviver com isso”, finaliza.

Dra. Geovana aponta que vacinação já tem surtido efeito

ESPERANÇA – Dra. Geovana Momo revela que vacinas reduziram afastamentos de profissionais da linha de frente (Foto: Divulgação)

A pandemia tem causado muito medo, insegurança e apreensão em toda a população, mas, certamente, nada se compara às dificuldades enfrentadas pelos profissionais da saúde, principalmente daqueles que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus, atuando incansavelmente para salvar o maior número de vidas possível. Diariamente expostos ao risco de contágio, muitos também são acometidos pela Covid-19, alguns, infelizmente, também se tornam vítimas fatais.

Para todos, mas especialmente para esses profissionais que têm sido fundamentais no enfrentamento à maior crise sanitária da história recente da humanidade, as vacinas desenvolvidas por diversos laboratórios ao redor do mundo surgiram como uma luz no fim do túnel, trazendo muita esperança em meio a tempos de incerteza. E a imunização iniciada em fevereiro já tem se demonstrado muito eficaz nesse sentido, é o que aponta Dra. Geovana Momo Nogueira de Lima, infectologista.

“Estou muito feliz com a vacinação. No início, tínhamos uma porcentagem grande de funcionários que adoeciam por ficarem muito tempo expostos ao vírus. Depois das vacinas, não temos mais isso. Às vezes, surge um caso ou outro, mas não vemos casos graves. Foi uma grande injeção de esperança”, ressalta a médica, que acredita que a estabilização da pandemia ocorrerá na medida em que houver avanço da aplicação das doses no público mais jovem, o que depende da oferta dos imunizantes.

Enquanto isso não ocorre, ela reforça sobre a importância da prevenção ao contágio. “Chegamos a um momento em que não conseguíamos internar um paciente por falta de leito. Essa realidade mudou, mas ainda encaro com muita parcimônia, porque, se as pessoas voltarem a circular de forma desmoderada, causando aglomeração e ignorando o uso de máscara, a higienização, o distanciamento, os casos voltam a subir. Espero que isso permaneça, mas precisamos da conscientização das pessoas”, diz.

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