Pandemia completa dois anos dando sinais de arrefecimento em Lençóis Paulista

Apesar de queda nos números, infectologista preza pela cautela e defende manutenção do uso de máscara

Quinta-feira, 26 de março de 2020. Na tarde dessa data, que completa exatos dois anos neste sábado, O ECO publicava, com exclusividade, a informação de que um exame de tomografia indicava que Lençóis Paulista tinha o primeiro caso positivo de infecção pelo novo coronavírus (Covid-19), o que foi confirmado três dias depois, quando a Secretaria de Saúde do município divulgou o resultado do exame laboratorial de um paciente de 49 anos que estava internado no Hospital Nossa Senhora da Piedade.

Àquela altura, alguns países europeus, como a Itália, já enfrentavam um caos no sistema de saúde, com hospitais superlotados e pessoas de várias idades morrendo em filas de espera por um respirador. No Brasil, com 2.915 casos e 77 mortes confirmadas, a pandemia já era motivo de grande preocupação por parte das autoridades sanitárias, que, dias antes, haviam recomendado uma quarentena geral, apenas com as atividades essenciais em funcionamento, apesar da discordância de alguns governantes.

Foi o primeiro caso oficialmente confirmado em todo o centro-oeste do estado de São Paulo. Não por acaso, a notícia caiu como uma bomba na cidade e também na região, tomada pelo clima de medo, apreensão e insegurança. Mas não demorou muito para que aquela também se tornasse uma realidade para outros municípios – todos eles. Na microrregião de cobertura de O ECO, Macatuba registrou o primeiro caso no dia 11 de abril. Já Borebi e Areiópolis notificaram infecções em 20 e 24 do mesmo mês.

Pouco tempo depois também começaram a surgir os óbitos ocasionados por complicações decorrentes da doença. Em Lençóis Paulista, o primeiro registro oficial foi feito no dia 23 de abril. No mês seguinte, foi a vez de Macatuba e Areiópolis, que registraram as primeiras mortes nos dias 15 e 24, respectivamente. Borebi entrou para a lista no dia 20 de junho, data do falecimento do então prefeito Antonio Carlos Vaca, primeira vítima fatal da pandemia no município, que estava internado há vários dias.

Passados exatos 24 meses, depois de períodos extremamente delicados, como entre março e abril do ano passado, quando a rede hospitalar chegou ao limite de sua capacidade e o alto número de pacientes internados com quadros graves de infecção resultou no desabastecimento de medicamentos fundamentais para o tratamento nas UTI (Unidades de Terapia Intensiva), do chamado kit intubação, a pandemia novamente dá sinais de arrefecimento, mas especialistas avaliam que é cedo para se pensar em um fim.

CAUTELA

Para a Dra. Geovana Momo Nogueira de Lima, médica infectologista que atua na linha de frente do combate à pandemia desde o início de 2020, apesar da queda acentuada dos índices, é preciso cautela. “Depois do aumento do número de casos que registramos no início deste ano, com a circulação da variante ômicron, começamos a observar uma diminuição na metade de fevereiro, até chegarmos neste ponto, com a situação mais tranquila no final de março, mas ainda não vencemos a pandemia”, diz.

Enfatizando que não se pode descuidar, mesmo com a situação sob controle, a especialista reforça a importância da vacinação contra a Covid-19, que resultou na redução do número de internações, principalmente de pacientes com quadros mais graves que, muitas vezes, não resistiam às complicações. Além disso, segundo ela, a ampla cobertura vacinal tem dificultado a circulação de novas cepas, mas a prevenção também depende, fundamentalmente, de outros protocolos, como o uso de máscara.

MÁSCARA

“Por mais que a classe política diga que as pessoas podem retirar suas máscaras, ainda temos casos positivos, temos novas cepas em circulação. O fim da pandemia não está decretado. Talvez, logo consigamos sair de uma epidemia para uma endemia, ou seja, com os casos mais controlados e sem uma grande parte da população contaminada, doente, precisando de hospitalização, mas ainda não”, completa a médica, que revela que a queda da obrigatoriedade do uso de máscara não conta com apoio da classe.

“Meu ponto de vista, e falo pela Sociedade Brasileira de Infectologia, é de receio com essa liberação precoce da máscara. Acredito que nos ambientes internos a obrigatoriedade deveria ser mantida, bem como em ambientes externos, com grandes aglomerações. Tenho orientado meus pacientes a permanecerem de máscara. Passei todo este período na linha de frente, atendendo pacientes com casos positivos, exposta diretamente ao vírus, mas sempre utilizando máscara. Não me contaminei”, ressalta.

DELTACRON

Sobre a nova variante deltacron, que está circulando em diversos países e, inclusive, já foi identificada no Brasil, Dra. Geovana destaca que estudos ainda estão em andamento, mas revela que observações preliminares indicam um menor potencial de risco. Classificada como uma variante híbrida por combinar material genético das variantes delta e ômicron, duas últimas cepas dominantes no mundo, ela teria se originado a partir de um paciente infectado com as duas linhagens ao mesmo tempo.

“O que se sabe é que, aparentemente, ela afeta mais as vias aéreas superiores, bem parecido com o que ocorre com a ômicron. É de fácil transmissão, mas não tem tanta capacidade de penetrar no pulmão, que é o que gera hospitalizações e gravidades. As informações que têm chegado até nós, que acompanhamos tudo por meio de um observatório nacional, é que os casos que estão sendo registrados no Brasil apresentam uma gravidade menor, causando sintomas bem parecidos com a gripe”, relata.

BALANÇO

Nessa sexta-feira (25), o total de casos confirmados desde o início da pandemia chegou a 21.772 em Lençóis Paulista, sendo que seis continuavam ativos. Apenas nos três primeiros meses de 2022, a cidade já contabilizou 9.146 casos, ultrapassando os 8.667 registrados ao longo de todo o ano passado. Apesar disso, apenas quatro pessoas morreram desde janeiro, totalizando 201 óbitos. Mesmo com os números elevados, a médica faz um balanço positivo do enfrentamento à pandemia no município.

“São muitos casos comparando com o tamanho da cidade. 2021 foi um ano muito difícil, mas, em nenhum momento, a população ficou desassistida. Foi preciso aumentar o número de leitos de enfermaria e terapia intensiva e até transferir pacientes para fora, mas houve muita união para enfrentar. Tivemos muitos casos, muitas internações e óbitos, mas também tivemos êxito, pois muitas pessoas conseguiram se recuperar. Acredito que, diante de tudo isso, o balanço é positivo”, finaliza.  


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