Menosprezo por casos assintomáticos dificultou o combate à Covid-19

MUNDO – Equipe da Dra. Camilla Rothe alertou sobre o risco de transmissão do coronavírus por assintomáticos (Foto: Laetitia Vancon/The New York Times)

No início da pandemia do novo coronavírus, acreditava-se que somente os doentes com sintomas da Covid-19 poderiam transmiti-la a outras pessoas. Para eles, a doença teria as mesmas características de uma "prima" próxima, a Sars. Não foi o que se viu nos meses seguintes, no entanto. Segundo entrevistas realizadas com médicos e autoridades de saúde de mais de 12 países, o risco de contaminação por pessoas assintomáticas não foi levado em consideração, o que acabou por retardar em dois meses o correto enfrentamento da doença.

De acordo com pesquisadores, esse atraso teria ocorrido por conta de afirmações científicas inconsistentes, rivalidades acadêmicas e pela própria relutância em admitir que, uma vez com o vírus, as nações teriam que tomar medidas extremas.

É impossível medir o tamanho do estrago causado por essa demora, mas acredita-se que, se ações agressivas tivessem sido colocadas em prática mais cedo, milhares de vidas poderiam ter sido salvas.

Países como Cingapura e Austrália, que começaram a testar as pessoas e rapidamente impuseram a quarentena a quem tinha viajado ao exterior, saíram-se muito melhor que os outros.

No dia 27 de janeiro, a médica Camilla Rothe, especialista em doenças infecciosas do Hospital Universitário de Munique, foi notificada do resultado positivo para o teste de Sars-CoV-2 em um de seus pacientes. Era o primeiro caso da doença na Alemanha.

Para ela, aquele diagnóstico não fazia sentido. Seu paciente, um executivo da Webasto (fabricante de tetos solares), só poderia ter sido contaminado por uma colega chinesa que veio visitá-lo. Essa pessoa, porém, parecia estar perfeitamente saudável, sem sinais de tosse, coriza, febre ou cansaço.

No voo de volta para a China, a mulher sentiu-se mal e, testada dias depois, também teve resultado positivo para a Covid-19. Junto com outros médicos, a doutora Rothe foi uma das primeiras a alertar sobre o perigo.

Mesmo com as evidências encontradas por cientistas, no entanto, as autoridades de saúde mundiais preferiram acreditar que a contaminação por assintomáticos não era importante.

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