Aprovação das vacinas é vitória da ciência, diz médica infectologista

Na expectativa para o início da imunização em Lençóis Paulista, especialista tira dúvidas sobre a CoronaVac e outros assuntos

Com mais de um mês de atraso em relação a países como Rússia, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos, o Brasil começou, enfim, a imunizar a população contra o novo coronavírus (Covid-19). O início da vacinação se deu no domingo (17), após a autorização concedida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para o uso emergencial da CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório Sinovac Biotech, da China, e da vacina de Oxford, fruto da parceria entre a farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Conforme já citado nesta edição, com a aprovação, cerca de 6 milhões de doses da CoronaVac vindas da China por meio de parceria firmada entre a Sinovac e o Instituto Butantan, responsável pela produção no país, começaram a ser distribuídas aos estados. São Paulo, que encabeçou as negociações para a viabilização da vacina, foi o primeiro a iniciar a aplicação pouco depois da liberação da Anvisa. Na tarde da segunda-feira (18), 4,4 mil doses já haviam chegado ao Hospital das Clínicas da Unesp de Botucatu, primeiro da região a receber um lote.

Diante da expectativa da chegada da CoronaVac às demais cidades nos próximos dias, O ECO entrevistou a Dra. Geovana Momo Nogueira de Lima, infectologista que atua na linha de frente do combate à pandemia, que esclareceu número de casos, internações e mortes neste início de ano. Também enfatizou a importância das barreiras sanitárias e relacionou o cenário atual ao relaxamento da população. Confira:

O ECO – No domingo (17), a Anvisa finalmente aprovou o uso emergencial tanto da CoronaVac quanto da vacina de Oxford, abrindo caminho para o início da imunização contra o novo coronavírus no Brasil. O que isso representa para o momento atual da pandemia no país?

Dra. Geovana Momo – É uma luz no fim do túnel. A vacina que temos no momento é a CoronaVac, da parceria da chinesa Sinovac com o Instituto Butantan. Nessa segunda-feira (18), as primeiras doses chegaram a Botucatu e acredito que nesta semana já estaremos com as vacinas para começar a aplicar em Lençóis Paulista, principalmente no profissional de saúde que está na linha de frente.

O ECO – Quantas doses devem ser distribuídas neste primeiro momento?

Dra. Geovana Momo – A Anvisa aprovou inicialmente o uso emergencial de 6 milhões de doses da CoronaVac, solicitado pelo Instituto Butantan. A pedido da Fiocruz, foram liberadas mais 2 milhões de doses da vacina de Oxford, que ainda não estão no Brasil. O estado de São Paulo ficou com algo em torno de 1,3 milhão de doses, que devem ser distribuídas da forma mais igualitária possível dentro dos hospitais que estão atendendo casos de Covid-19.

O ECO – Qual o sentimento de quem está trabalhando na linha de frente desde março de 2019 ao ver este dia chegar?

Dra. Geovana Momo – Quando vimos o caminhão saindo de São Paulo com as doses a caminho de Botucatu, a sensação foi a de que a ciência venceu. Temos acompanhado o aumento no número de casos, aumento de ocupação de leitos, tanto de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) quanto de enfermaria e, quando pensamos na vacina para prevenir casos graves, temos a esperança de que as coisas começarão a mudar. Mas não porque teremos a vacina e deixaremos de lado a máscara, a higienização das mãos, o distanciamento social. Pelo contrário.

O ECO – Você acredita que há relação direta entre o aumento do número de casos e a movimentação do final de ano, tanto nas festas de Natal e Ano Novo quanto no comércio?

Dra. Geovana Momo – Está diretamente ligado, sim. Toda vez que temos aglomeração, temos circulação maior do vírus. Foi o que vimos e ainda estamos vendo. As pessoas começaram a se aglomerar mais, se reunindo, fazendo festa, principalmente o pessoal mais jovem, que leva o vírus para dentro de casa, para os pais e os avós. São essas pessoas que acabam sendo acometidas pela Covid-19 e desenvolvem quadros piores. Temos dados que mostram que 77% dos casos graves, que precisam de UTI e até evoluem a óbito, são de pessoas de mais idade.

O ECO – Em 29 de março, quando a cidade confirmou o primeiro caso, o clima era de muita apreensão. Agora, mesmo com mais de 150 casos ativos, percebemos um comportamento diferente da população. Você acredita que passou o medo ou que as pessoas não estão percebendo a gravidade da situação?

Dra. Geovana Momo – Houve um relaxamento. As pessoas precisam de um pouco mais de empatia, se colocar no lugar do outro. Talvez, muitos jovens não tenham perdido ninguém tão próximo e não conseguem ter a dimensão da doença. As famílias que perderam entes queridos, provavelmente, tenham outra visão. Nós, que estamos na linha de frente, fazendo diagnósticos e internando pessoas quase que diariamente, temos muito medo, sim, principalmente de levar a doença para nossas casas.

O ECO – Voltando na questão das vacinas, há muita dúvida das pessoas sobre a eficácia da CoronaVac, que é de 50,38%, enquanto que a da vacina de Oxford é de 70%. Para quem têm certo receio em relação à eficiência, a CoronaVac garante a imunização?

Dra. Geovana Momo – A eficácia global de 50,38 é para casos leves, para as pessoas que tiveram algum tipo de sintoma muito leve ou nem apresentaram sintoma. Quando passamos para os casos leves a moderados, de pessoas que procuraram atendimento, mas não precisaram ser internadas, chegamos a 78%. Já quando passamos para os casos graves, que precisam de UTI, não houve registro em ninguém do grupo que tomou a vacina. Quando comparamos com a de Oxford, a diferença é grande, mas eu sempre digo que a melhor vacina é a que temos disponível. Neste momento, o que temos é a CoronaVac, mas ela tem todo um estudo de segurança analisado pela Anvisa. As 6 milhões de doses são seguras e a população pode receber sem medo.

O ECO – Isso, inclusive, foi repetido na fala de muitos diretores da Anvisa durante a reunião que deliberou sobre a autorização do uso emergencial das vacinas. Então, podemos concluir que é seguro tomar a vacina?

Dra. Geovana Momo – É seguro. Eu vou tomar por ser profissional de saúde da linha de frente, sem problema nenhum, sem risco nenhum. A vacina foi garantida pela Anvisa. Todos os estudos foram submetidos e, entre risco e benefício, a vacina apresentou mais benefício neste momento de pandemia. Lembrando que alguns grupos não foram contemplados neste momento, como gestantes, puérperas e lactantes. Primeiro serão vacinados os profissionais de saúde, depois os idosos.

O ECO – E cada pessoa deve receber duas doses dentro do intervalo correto para estar imunizada, não é mesmo?

Dra. Geovana Momo – Vamos receber a primeira dose e, depois de 14 a 21 dias, a segunda. Só depois de passadas mais duas semanas dessa segunda dose é que podemos ter a imunidade contra a Covid-19. Outra coisa importante: não é porque alguém de casa ou os vizinhos receberam a vacina que podemos quebrar os protocolos, uma vez que só vamos ter a sonhada imunidade de rebanho quando tivermos 90% da população vacinada.

O ECO – Existe alguma contraindicação para receber a vacina?

Dra. Geovana Momo – A contraindicação absoluta é para pessoas que já tiveram anafilaxia, que é uma reação alérgica. Pessoas que têm alergia a qualquer vacina precisam dizer, pois, neste momento, não vão receber as doses. Também precisamos ter mais precaução com pessoas com doença ativa. Se tiver febre ou algum tipo de doença em tratamento, como pneumonia e meningite, a pessoa também não será vacinada. Quem já teve Covid-19, com ou sem sintomas, pode receber as doses normalmente. Se a pessoa tomar e depois descobrir que estava infectada, não há problema, pois a vacina não potencializa os riscos da doença.

O ECO – Cerca de 60 países iniciaram a imunização antes do Brasil, alguns há mais de um mês. Houve displicência ou falta de emprenho por parte das autoridades?

Dra. Geovana Momo – Na produção, não. Tivemos dois institutos, o Butantan e a Fiocruz muito empenhados. O que houve foi um retardo para garantir as vacinas. Quando víamos outros países vacinando e nada acontecendo no Brasil tínhamos até revolta. Várias entidades médicas fizeram um manifesto para que o país, por sua dimensão e riqueza, agisse para ter as vacinas. Finalmente, duas foram aprovadas, mas isso não significa que tudo está resolvido. Vai levar muito tempo para vacinar toda a população.

O ECO – De quanto tempo estamos falando, visto que o Brasil é um país continental com mais de 200 milhões de habitantes? Isso deve se estender até o final deste ano ou mais?

Dra. Geovana Momo – Com certeza. Temos que considerar duas questões: produção e logística. Primeiro a produção tem que acontecer, depois tem que funcionar toda a logística para fazer com que as vacinas cheguem aos estados e municípios. Isso não será imediato.

O ECO – Isso aumenta ainda mais a importância de manter os protocolos sanitários?

Dra. Geovana Momo – Creio que protocolos de segurança como o distanciamento, o uso de máscara e a higienização serão um hábito inserido em nosso DNA. Acho que não iremos abandoná-los tão cedo.

O ECO – Você acredita que deve ocorrer com o coronavírus e a Covid-19 o que acontece com a influenza e a H1N1, com mutações que obrigam que as vacinas sejam sempre reformuladas e que a população se imunize anualmente?

Dra. Geovana Momo – Com certeza. Já temos uma cepa mutante identificada no Reino Unido, que também já conseguimos identificar no Brasil. Isso é típico do vírus, faz parte dele, assim como da influenza, que se modifica todo ano. Mas, neste primeiro momento, a vacina também consegue imunizar contra essa cepa mutante.

O ECO – O colapso no sistema de saúde de Manaus, que culminou na morte de pacientes por falta de algo tão básico como oxigênio, chocou todo o país na semana passada e despertou muitos questionamentos sobre a capacidade de atendimento de outros locais. Isso pode ocorrer por aqui também? Até que ponto nosso sistema de saúde está preparado para enfrentar um aumento desproporcional de casos?

Dra. Geovana Momo – Nosso grande medo sempre foi o colapso do sistema de saúde, com pessoas com casos graves precisando de hospitais sem que tenhamos condições de atender à demanda. Cidades como Marília, Bauru e até Lençóis já estão perto do limite de ocupação dos leitos. É mais um argumento que usamos para reforçar que não é hora de aglomerações. É possível aumentar o número de leitos, já vemos isso em outras cidades, mas se as pessoas não tomarem os devidos cuidados e a circulação do vírus aumentar, possivelmente, vamos ter falta de leitos como em Manaus.

O ECO – Para encerrar, quais são suas considerações finais?

Dra. Geovana Momo – Hoje (segunda-feira) foi um dia feliz. É um momento em que a ciência vence, mas peço para que a população, mesmo com a chegada da vacina, respeite as orientações. Não é hora de tirar as máscaras ou fazer aglomerações. É muito importante manter os protocolos de segurança, que são as medidas mais eficazes que temos contra a pandemia.

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