Pelo bem comum, Bibaia pede que união supere diferenças pessoais

Eleito para a presidência da Câmara Municipal de Lençóis Paulista, vereador fala de sua trajetória e expectativa para os dois anos em que estará à frente do Legislativo

O ECO inicia nesta edição uma série de entrevistas com os chefes dos respectivos Poderes Executivos e Legislativos das cidades de sua área de cobertura. O primeiro entrevistado é o vereador Jucimário Cerqueira dos Santos, o Bibaia (PODE), eleito para a presidência da Câmara de Lençóis Paulista em sessão solene realizada no primeiro dia deste ano.

Com 37 anos de idade, Bibaia é natural da cidade de Água Fria, na Bahia, de onde veio com a família em 1994 em busca de melhores condições de vida. Casado e pai de dois filhos, ele é servidor público na Prefeitura Municipal de Lençóis Paulista há 20 anos. Já atuou como varredor de rua, coletor de lixo, podador de árvores e atualmente exerce a função de motorista.

Entrou para a vida pública em 2016, quando se candidatou para vereador pelo PV (Partido Verde), sendo eleito com 652 votos. Bastante atuante na Casa de Leis, exerceu o cargo de primeiro-secretário da Mesa Diretora no último biênio da legislatura passada (2019/2020). Nas eleições do dia 15 de novembro, já filiado ao Podemos, foi reeleito com 680 votos para o mandato 2021/2024.

Nas semanas que antecederam a posse, o vereador foi apontado como um dos possíveis candidatos à presidência do Legislativo, mas havia optado por continuar como primeiro-secretário na chapa de Nardeli da Silva (DEM), que tentava se reeleger com Damião Augusto Xavier de Oliveira, o Professor Guto (MDB), como vice-presidente, e Luiz Gonzaga da Silva, o Luizinho do Açougue (PL), como segundo secretário.

Porém, depois de uma polêmica envolvendo a legalidade ou não da recondução de vereadores para os mesmos cargos, levantada por Mirna Adriana Justo (PSDB), se apresentou como opção para chefiar o Legislativo. Compondo chapa com Nardeli como vice, Professor Guto como primeiro-secretário e Francisco de Assis Naves, o Chico Naves (MDB), como segundo-secretário, foi eleito por unanimidade.

O ECO – Na sessão solene que marcou a posse dos eleitos, tudo caminhava para a escolha do vereador Nardeli da Silva para a presidência, com o Professor Guto como vice, você e o Luizinho do Açougue como primeiro e segundo secretários. Mas a partir do questionamento da vereadora Mirna Justo (PSDB), que pediu a impugnação da chapa alegando que a legislação local impedia a reeleição de membros da Mesa Diretora para os mesmos cargos, o que não se aplicava apenas ao Professor Guto, você se lançou candidato e acabou sendo eleito. O que te fez tomar essa decisão?

Bibaia – Bem antes da posse já tínhamos definido a composição da chapa, mas a Dra. Mirna lançou esse questionamento com base no Regimento Interno e na Lei Orgânica do Município. Meu entendimento é que uma chapa não pode concorrer à reeleição dentro de um mesmo mandato, o que não era o caso, já que nosso vínculo foi rompido no dia 31 de dezembro de 2020 e assumimos para outra legislatura no dia 1 de janeiro. Porém, depois de muitos falarem de amor, união e harmonia durante a posse, começou uma discussão que não julgo sadia. Por isso, pedi a palavra e disse que se o problema era a composição da chapa, apresentava meu nome como presidente, com o Nardeli como vice, o Professor Guto e o Chico Naves como primeiro e segundo secretários. Assim foi feito e os vereadores aprovaram por unanimidade.

O ECO – Como têm sido os primeiros dias como presidente?

Bibaia – Na segunda-feira (4), antes de me reunir com os vereadores para tratar da formação das comissões permanentes, conversei com os servidores efetivos da Casa e passei confiança para que todos tenham condições de continuar executando seus serviços. Também me reuni com o prefeito (Anderson Prado de Lima) para tratar de assuntos administrativos, pois, na terça-feira, fizemos uma sessão extraordinária para votar alguns projetos urgentes, como os convênios com as entidades, que fazem um belíssimo trabalho em nosso município e precisam de auxílio.

O ECO – O Legislativo está em recesso, mas você deve ter uma agenda intensa nos próximos dias. Sendo servidor público concursado e exercendo a função de motorista na Prefeitura Municipal, como pretende conciliar, visto que o cargo de presidente exige o cumprimento de expediente na Câmara Municipal?

Bibaia – Após conversar com os jurídicos da Câmara e da Prefeitura, fiz o pedido de redução da carga horária, que vai possibilitar que eu consiga exercer as duas funções, de motorista e presidente do Legislativo.

O ECO – E como acredita que será essa jornada dupla, que você já mantinha enquanto vereador, mas com mais flexibilidade?

Bibaia – Eu sei distinguir um cargo do outro. Enquanto trabalho na Prefeitura, sirvo a população como motorista concursado. Quando estou na Câmara, sou o Bibaia vereador. É difícil acumular, mas tenho certeza que darei conta do recado, porque estou preparado para isso.

O ECO – Por falar em estar preparado, você acabou de iniciar seu segundo mandato. Sua primeira eleição, em 2016, foi recebida até com certa surpresa, mas você conseguiu fazer um bom trabalho nos últimos quatro anos e, não apenas garantiu sua reeleição, como deu um passo adiante ao conquistar a presidência. Sua trajetória é muito parecida com a do agora vice-prefeito Manoel dos Santos Silva, o Manezinho (PSL), negro e nordestino que chegou à cidade ainda pequeno, entrou para a política e exerceu cinco mandatos consecutivos como vereador, se tornando presidente em 2017. Qual a importância de representar essas parcelas da população?

Bibaia – Desde já quero agradecer a todas as pessoas que acreditaram em mim. Desde 1994, quando cheguei a Lençóis Paulista, sempre tive o sonho de ser vereador. Tive a oportunidade e estou aproveitando. Digo que sempre temos que estar preparados e não esperar a oportunidade bater em nossa porta. Temos que estar prontos para quando ela chegar agarrarmos com unhas e dentes. É o que vem acontecendo desde 2016, quando fui eleito pela primeira vez. A presidência é uma evolução muito grande, uma conquista muito importante não só para mim e para minha família, mas também para os negros e nordestinos que represento, como toda a população.

O ECO – Falando em estar preparado para quando a oportunidade chegar, você iniciou sua trajetória trabalhando na limpeza urbana em diversas funções. Assim que se elegeu, foi buscar conhecimento e hoje tem um diploma universitário na bagagem. O que isso representa para você?

Bibaia – Aprender nunca é demais. Quando investimos em capacitação, em conhecimento, estamos estruturando nossa vida. Comecei de 2000 para 2001 na varrição de rua e na capina, trabalhei muitos anos na coleta de lixo, fui para a poda de árvore e depois prestei concurso para o cargo de motorista, que já exerço há sete anos. Quando fui eleito, senti a necessidade de estudar para não ficar para traz, pois não tinha conhecimento sobre muitos projetos que estavam sendo discutidos e votados. Ingressei na faculdade de Gestão Pública em 2017 e concluí em 2019. Neste ano, vou iniciar uma pós-graduação em Administração Pública e Gerência de Cidade.

O ECO – Partindo para as questões polêmicas, a sede administrativa da Câmara Municipal, volta e meia, vira tema de debate por conta do alto valor mensal do aluguel, que hoje é de R$ 10 mil. No ano passado chegou a ser cogitada a transferência para o prédio do CAC (Centro de Atendimento ao Cidadão), que teve boa parte da estrutura transferida para o Poupatempo. O que você pretende fazer?

Bibaia – A Câmara Municipal realmente tem que ter sua própria sede. Todos que pagam aluguel querem sua própria casa, assim também é com o Legislativo. Minha preocupação são as condições de trabalho para os servidores. Foi feito um levantamento em busca de prédios para acomodar a estrutura e não foi encontrado. Em relação ao CAC, o impedimento é uma cláusula (no termo de doação do prédio à Prefeitura pela Sociedade Italiana) que diz que o local deve ser utilizado para fins educacionais. Mas vamos estudar essa questão com calma e conversar com o prefeito, ver as condições do prédio e analisar financeiramente, porque se o local não estiver em condições de uso teremos que investir em reformas.

O ECO – O que também gera debates recorrentes são os assessores do Legislativo. Alguns são contra a contratação de assessores pessoais para vereadores. Outros alegam que eles não são exclusivos e atendem a todos os parlamentares. Inclusive, na última sessão de 2020, você acabou entrando em uma discussão sobre isso com o vereador Leonardo Henrique de Oliveira, o Dudu do Basquete (CIDA). Como planeja tratar essa questão, que cabe a você a partir de agora?

Bibaia – Não vou fazer nada que não esteja baseado na lei, sem o parecer do jurídico. Esses valores já estão no orçamento, mas não é fácil assumir e ter que organizar tudo. Conversei com cada vereador e eles entenderam que não farei nada precipitado.

O ECO – Seguindo nesta questão, a Câmara Municipal tem dois tipos de assessores, o parlamentar e o legislativo. Até o ano passado, o primeiro exigia apenas nível Médio, mas agora ambos têm como requisito o nível Superior. Mesmo com a mudança, não houve equiparação salarial e um cargo recebe praticamente metade do que o outro, apesar das mesmas competências. O que será feito em relação a isso?

Bibaia – A mudança foi feita a partir de um apontamento do Tribunal de Contas. É justo que haja equiparação, mas não podemos fazer isso por enquanto por conta de um decreto do Governo Federal que barra o aumento de gastos em decorrência da pandemia. Temos que estudar com o jurídico e com o RH (Recursos Humanos) uma solução que não mexa no orçamento da Câmara.

O ECO – Aproveitando o gancho, o responsável por assessorar a Mesa Diretora na parte jurídica nos últimos anos vinha sendo o Dr. Antonio Carlos Rocha, que no final do ano passado comunicou o então presidente Nardeli da Silva que não deveria permanecer. Este é um cargo de confiança. Você já tem um nome?

Bibaia – Sim, tenho um nome: Dr. Rocha. Conversei com ele e o convenci a permanecer. Ele é uma pessoa de uma índole incomparável, um profissional que a Câmara precisa ter. É um promotor aposentado que entende muito de leis e nos dá muita segurança. Minhas ações serão sempre baseadas no parecer dele, pois confio em seu trabalho, que é exemplar.

O ECO – O que você espera para os próximos dois anos? Quais serão os maiores desafios?

Bibaia – Não vai ser fácil, mas tenho certeza que todos os servidores e vereadores farão um bom trabalho. O importante é que todos se unam em benefício da população. Se começarmos a legislatura com brigas, quem perde é Lençóis. Por isso, peço que trabalhemos de mãos dadas, inclusive com o Executivo, pois é importante que fiscalizemos suas ações, mas que também haja parceria.

O ECO – Pelo teor da sessão solene que marcou sua eleição é possível presumir que ainda veremos muitos embates. Como você espera aparar as arestas, inclusive nos bastidores, onde muitos conflitos acontecem, para que tudo aconteça da melhor forma?

Bibaia – Somos 12 vereadores e as cabeças não pensam igual. Sei que vai haver muita discussão, mas o importante é que isso não traga prejuízo para a cidade. Temos que discutir um projeto que para mim se chama Lençóis Paulista. Não podemos sair deste foco. A partir do momento que deixamos isso de lado pelo próprio ego, quem perde é o povo. Discutiremos, sim, mas para o bem da cidade. Assim espero de todos vereadores.

O ECO – Para encerrar, qual mensagem você deixa para a população lençoense?

Bibaia – Agradeço pela oportunidade de falar sobre o Poder Legislativo. Digo que as portas da Câmara Municipal sempre estarão abertas para o cidadão. Basta entrar em contato com os vereadores. Tenham certeza que este mandato será de muito trabalho. Desejo que Deus abençoe nossa Lençóis Paulista.

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