Índices sugerem tendência de queda na taxa de infecção

Diante da resposta considerada satisfatória para as medidas adotadas nas últimas semanas, Comitê de Enfrentamento decide ampliar restrições neste final de semana

Após enfrentar o período mais crítico desde o início da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), Lençóis Paulista começa a apresentar ligeiros sinais de melhora nos índices epidemiológicos. De acordo com dados obtidos pela reportagem de O ECO, Depois de registrar recorde de infecções entre os dias 14 e 20 de março, a cidade registrou uma queda considerável no número de contaminados na semana seguinte, o que reflete a eficácia das restrições mais rígidas que entraram em vigência no período.

Segundo os dados obtidos junto à Vigilância Epidemiológica local, o pico de infecções na cidade ocorreu na 11ª semana epidemiológica, compreendida entre os dias 14 e 20 de março, quando foram registrados 798 casos de Covid-19. Depois da adoção de restrições mais rígidas nas últimas semanas, com a suspensão dos serviços não essenciais aos finais de semana, inclusive no sistema drive-thru, os números revelam uma sensível melhora no índice de infecções.

Na 12ª semana epidemiológica, entre os dias 21 e 27, foram confirmados 555 novos casos de Covid-19, o que representa queda de 30,45% em relação à semana anterior. Esta foi a primeira redução no número de pacientes contaminados em quase dois meses, desde o dia 6 de fevereiro. De lá para cá, foram registradas seis altas consecutivas: 6ª semana (139), 7ª semana (181), 8ª semana (235), 9ª semana (457), 10ª semana (548), 11ª semana (798).

Adriana Aparecida Santana, coordenadora da Vigilância Epidemiológica e vice-presidente do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 de Lençóis Paulista, ressalta que os dados são animadores e, de certo modo, aumentam a sensação de esperança em meio à grave crise enfrentada pelo município. No entanto, ela destaca que é preciso cautela ao interpretar os gráficos, pois é cedo para tirar conclusões.

“Em relação ao número de casos, observamos uma tendência de queda na contaminação, mas só podemos fazer afirmações com precisão após 15 dias de avaliação dos dados. É importante frisar que ainda estamos em alta nas taxas de internações e óbitos, que refletem o contexto de semanas anteriores. Por isso, o Comitê decidiu intensificar as restrições (confira no box)”, comenta.

ÓBITOS SEGUEM EM ALTA

A ponderação da coordenadora da Vigilância Epidemiológica pode ser constatada em outro gráfico, que compara o número de mortes por semana. No mesmo período em que a cidade registrou queda no número de contaminações, na 12ª semana epidemiológica, houve recorde no número de mortes. Ao todo, entre os dias 21 e 27 de março, foram contabilizados 20 óbitos em decorrência de complicações da Covid-19.

De acordo com o Boletim Epidemiológico divulgado na tarde dessa quinta-feira (1), com mais duas mortes (uma mulher de 60 anos e um homem de 69 anos), depois de um dia sem baixas, o número de vítimas fatais subiu para 107 na cidade. O total de casos confirmados desde o início da pandemia já soma 8.442, dos quais 385 permanecem em estágio ativo. Outras 22 pessoas estão com suspeita de infecção.

O Boletim Hospitalar revelava que 23 pessoas estavam internadas em leitos da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do PAC-19 (Pronto Atendimento à Covid-19) e da UTI geral do Hospital Nossa Senhora da Piedade, o que indicava taxa de ocupação de 115%. A ocupação dos leitos de enfermaria estava em 85%, com 47 das 55 vagas ocupadas. Outras 15 pessoas estavam internadas em outros hospitais, o que inclui o CMU (Centro Médico Unimed) e unidades da região.

Falta de medicamentos resultou em duas mortes nesta semana

Além da alta taxa de ocupação hospitalar, a reposição dos estoques de medicamentos essenciais para o tratamento de pacientes com quadros mais graves de Covid-19, internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do PAC-19 (Pronto Atendimento à Covid-19), passou a ser uma das maiores preocupações dos profissionais que atuam no enfrentamento à pandemia.

No último domingo (28), o vazamento de um áudio compartilhado em um grupo privado de WhatsApp pelo Dr. Norberto Pompermayer, presidente do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 do município, tornou pública a informação de que duas pessoas haviam falecido pela falta de bloqueador neuromuscular (utilizado no processo de intubação), uma mulher de 46 anos e um homem de 41 anos.

A dificuldade enfrentada pela cidade havia sido informada ao Governo do Estado de São Paulo dois dias antes, na sexta-feira (26), quando um ofício solicitando a reposição urgente de medicamentos que compõem o chamado kit intubação foi encaminhado ao DRS (Departamento Regional de Saúde) de Bauru por Ricardo Conti Barbeiro, secretário de Saúde.

Como resposta, porém, foram enviadas apenas 40 ampolas do medicamento midazolam, apenas um da lista, e em quantidade insuficiente, visto que a demanda diária era de cerca de 320 ampolas para a quantidade de pacientes internados na ocasião. Sem respaldo para o atendimento e com o agravamento do quadro clínico dos pacientes, a cidade viu mais duas vidas se perderem.

O drama ficou ainda mais evidente pela comoção de DR. Norberto, que, em tom de desabafo, chegou a chorar na gravação. “As pessoas estão morrendo no respirador e as que tem que intubar, não vamos intubar. Acabou. Não se pode fazer tratamento precoce, não se pode fazer tratamento preventivo, não se pode intubar e ainda corremos o risco de ficar se oxigênio”, lamentou.

Governo do Estado ainda não cumpriu decisão judicial

Ainda na noite do domingo (28), após uma Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público a partir de acionamento da Prefeitura Municipal, a juíza Marina Freire, da 32ª Circunscrição Judiciária de Bauru, determinou que o Governo do Estado de São Paulo solucionasse imediatamente o problema de falta de medicamentos necessários para o tratamento dos pacientes internados no PAC-19.

Em sua decisão, a magistrada estabeleceu o prazo de quatro horas, a contar do recebimento da notificação, para que houvesse a normalização da situação, ou, em caso de impossibilidade da reposição dos estoques, que houvesse a transferência dos pacientes para unidades de referência da região no prazo de oito horas, sob pena de aplicação de multa de R$ 3 milhões, além de responsabilização criminal.

Por conta da determinação judicial, no início da semana o DRS de Bauru solicitou dados dos pacientes para, se necessário, fazer a inclusão dos mesmos na lista de transferência da CROSS (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde). A informação divulgada à imprensa é de que quatro pessoas foram transferidas, três na segunda-feira (29) e uma na terça-feira (30).

Em relação aos medicamentos, porém, a cidade ainda aguarda as devidas providências. Segundo o secretário Ricardo Conti Barbeiro, além de 700 ampolas de sedativos e relaxantes musculares emprestados pelo Hospital das Clínicas da Unesp de Botucatu, a mobilização junto a outros municípios garantiu o suficiente para atender à demanda dos pacientes para esta semana, mas a situação ainda é delicada.

“O Governo do Estado nos comunicou que a remessa está prevista para este final de semana, mas ainda não temos a confirmação, e nem mesmo a informação, do que exatamente receberemos. Estamos atuando para assegurar que, independentemente disso, tenhamos garantia de reposição por outras vias. Estamos em contato com o DRS para que, se necessitarmos de apoio, tenhamos a indicação de onde recorrer”, diz.

Sobre o estoque atual, ele afirma que, como a evolução é rápida, o monitoramento tem que ser permanente, pois contas de hoje podem não valer amanhã. “Precisamos reavaliar nossa autonomia constantemente. Se agora temos o suficiente para cinco dias, amanhã, dependendo da quantidade de pacientes e da complexidade dos casos, isso muda. A luta tem sido para recompor um estoque de garantia”, completa.

Decreto amplia restrições neste final de semana

Diante da resposta considerada satisfatória para as medidas adotadas nas últimas semanas, como citado acima, os membros do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 de Lençóis Paulista decidiram ampliar as restrições para este final de semana, também aproveitando o feriado desta Sexta-feira Santa (2). A deliberação foi feita reunião realizada na tarde da quarta-feira (31).

A partir das recomendações do órgão, que é presidido pelo médico Norberto Pompermayer, a Prefeitura Municipal publicou um decreto regulamentando as mudanças na tarde dessa quinta-feira (1). A principal alteração é a adoção de um lockdown no domingo (4), data em que se comemora a Páscoa, na qual apenas as farmácias, postos de combustíveis e hotéis terão autorização para funcionar.

De acordo com o novo decreto, os estabelecimentos essenciais da área de alimentação, que tinham o funcionamento permitido nos finais de semana, devem fechar as portas. A medida inclui supermercados, mercearias, padarias, quitandas, peixarias, varejão, entre outros. A única exceção é para o sistema de delivery (entrega em domicílio). Neste sábado, esses estabelecimentos podem receber o público até as 21h.

Para as outras atividades, como comércio em geral, lojas de materiais de construção, oficinas, academias, bares, lojas de conveniência, entre outras, continua valendo as restrições que já estavam em vigor, que impedem o atendimento ao público aos finais de semana. O decreto pode ser conferido, na íntegra, pelo endereço https://lencois.mentor.metaway.com.br/acessos/decreto/bfsDnb3f4Brzn9d.html.

Questionado, o prefeito Anderson prado de Lima (DEM) diz esperar que as medidas contribuam para que os números sigam em queda. “Dados da semana passada apontam que nosso trabalho de mitigação do trânsito de pessoas começou a dar resultado, com a queda da transmissibilidade e, nesta semana, estamos caminhando para o mesmo resultado. Adotamos essas medidas para manter nossa descida”, pontua.

Ainda segundo Prado, os índices serão acompanhados para nortear as medidas que serão adotadas nas próximas semanas. “É importante que mantenhamos o rigor com as restrições para que a tendência que observamos se mantenha e possamos aliviar a pressão sobre nosso sistema de saúde. Temos que fazer o que for preciso e sempre seguiremos as recomendações de nosso Comitê de Enfrentamento”, completa.

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