Em novo leilão da Aneel, IBS fecha contrato de R$ 850 milhões

Termelétrica Cidade do Livro foi a única usina de biomassa contemplada em projeto que visa suprir a demanda em tempos de crise energética

Antes mesmo de iniciar as obras da Termelétrica Cidade do Livro em Lençóis Paulista, o Grupo IBS Energy garantiu a viabilidade do projeto com um contrato que contempla 100% da disponibilidade de potência da usina, que começa a ser construída em julho de 2022. A empresa foi uma das vencedoras do inédito leilão de reserva de capacidade de geração de energia, realizado na manhã dessa terça-feira (21) pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

O leilão, promovido em parceria com o Ministério de Minas e Energia e a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), contou com 132 projetos cadastrados, dos quais apenas 17 foram qualificados. De acordo com a assessoria de imprensa da Aneel, entre os empreendimentos vencedores estão nove termelétricas movidas a gás natural, cinco a óleo combustível, duas a óleo diesel e apenas uma a partir de biomassa, no caso, a Termelétrica Cidade do Livro.

Como sugere o nome, o leilão realizado na terça-feira tem o objetivo de garantir reserva de capacidade de geração de energia para tempos de crise hídrica, como a atual, que é a pior dos últimos 91 anos. A medida visa minimizar os impactos em períodos em que o funcionamento das usinas hidrelétricas – principais fontes de geração da matriz energética nacional – ficar comprometido pela falta de chuva e a consequente diminuição dos níveis dos reservatórios.

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Basicamente, as usinas contratadas ficarão à disposição do SIN (Sistema Interligado Nacional) para situações em que for necessário o acionamento para suprir a demanda. Além de gerar mais segurança energética, a reserva pode diminuir o valor da conta de luz, uma vez que os custos passarão a ser distribuídos entre todos os usuários finais do sistema e não apenas entre clientes de uma distribuidora que precisar comprar energia em determinado período.

“A grosso modo, é como um seguro contratado, uma compra antecipada de reserva de potência a valores pré-determinados. Cada projeto vencedor, como o nosso, é pago para manter sua capacidade de geração à disposição para quando for necessário. Quando não houver essa demanda, o modelo permite que a energia seja comercializada no chamado mercado livre, o que garante mais competitividade”, explica Murilo Galli, representante da IBS Energy na região.

BOM NEGÓCIO

Os contratos com as empresas vencedoras do leilão têm vigência de 15 anos, com validade a partir de julho de 2026. Com 4.632 MW de potência contratada a um preço médio de R$ 824,5 mil por MWh/ano (megawatt-hora por ano), o que representa deságio de 15,34% em relação ao preço inicial, serão pagos R$ 3,4 bilhões anuais e R$ 57,3 bilhões no total. Apesar das altas cifras do negócio, a Aneel projeta uma economia de R$ 10 bilhões ao consumidor final.

“Com essa contratação, substituiremos o parque térmico atual, que é ineficiente, poluente e caro. Assim, vamos obter preços mais competitivos na geração de energia, avançar na desoneração das tarifas para os consumidores regulados e ampliar a segurança energética para toda a sociedade brasileira”, comenta, em nota, André Pepitone, diretor-geral da agência, que avalia que o leilão é o primeiro instrumento de avanço na modernização do setor elétrico brasileiro.

Empresa terá que abrir mão de outro contrato

De acordo com os termos acordados, a IBS Energy vai receber R$ 55,9 milhões anuais a partir de julho de 2026, o que representa um montante de aproximadamente R$ 850 milhões ao longo dos 15 anos de vigência do contrato. Os valores contemplam a disponibilidade de 65,6 MW de potência, que correspondem a todo o volume excedente de geração da Termelétrica Cidade do Livro, que terá 80 MW de capacidade instalada, mas consumirá parte da energia no processo.

A vitória no leilão de reserva, no entanto, deve impedir a empresa de seguir adiante com o contrato firmado no leilão Nova A-5, realizado no final de setembro. Na ocasião, com o preço do MW/h (megawatt-hora) fixado em R$ 275, a IBS Energy havia negociado o fornecimento de 15,6 MW por um período de 20 anos, também com vigência a partir de 2026. Com impossibilidade técnica para atender ambas as demandas, a empresa deve declinar da negociação anterior.

Murilo Galli explica que a questão ainda será discutida com a Aneel, mas a tendência é de que ocorra exatamente isso, o que não é visto como um problema diante das vantagens do novo acordo. “Trata-se de um contrato mais robusto, o que representa muito para a Termelétrica Cidade do Livro. Com vida útil de 30 anos, o projeto terá todo o investimento pago no primeiro ciclo, o que cria boas perspectivas para um segundo momento de investimento”, avalia.

Outro ponto determinante é que as garantias da negociação avalizam o empreendimento junto ao mercado financeiro. “Se existia qualquer tipo de dúvida quanto à viabilidade do projeto, caiu por terra. Isso é muito significativo para o grupo como um todo, pois agrega mais valor no mercado. Vamos decolar com muita força a partir do ano que vem. Apesar de ser um contrato para julho de 2026, nosso objetivo é estar em operação no segundo semestre de 2024”, comenta.

Vicinal que ligará usina à SP-300 será recuperada

Com investimento estimado em R$ 500 milhões, a Termelétrica Cidade do Livro ocupará uma área de 121 mil metros quadrados há cinco quilômetros do centro de Lençóis Paulista. Concluída, ela será a maior usina do país a utilizar múltiplas biomassas como combustível (cavaco e pó de madeira, palha e bagaço de cana-de-açúcar, entre outros tipos de resíduo), com capacidade instalada de 80 MW, suficientes para abastecer uma cidade de 1 milhão de habitantes.

A usina também terá grande apelo ambiental, não somente pela geração de energia limpa e renovável, mas por outros aspectos, como o tratamento e utilização de água de esgoto da cidade em seu processo de refrigeração, poupando recursos naturais. Com o projeto desenvolvido pelas empresas Fundamento Engenharia e Reunion Engenharia e construção sob responsabilidade da SEPCO1, do Grupo PowerChina, a planta será abastecida com biomassa pela Madeplant Florestal.

A construção do empreendimento está prevista para iniciar em julho de 2022, mas o trabalho deve começar em março, com as obras na estrada que faz a ligação entre a futura usina e a Rodovia Marechal Rondon (SP-300). Para que as obras possam ter início, um trecho de cerca de 2,8 quilômetros de extensão precisará passar por diversas intervenções, que vão desde o alargamento e recapeamento à substituição de uma ponte e à implantação de uma nova rotatória.

De acordo com informações obtidas pela reportagem de O ECO, existem tratativas em andamento para que a estrada seja incluída pelo Governo do Estado de São Paulo em um novo pacote de investimentos por meio do programa Novas Estradas Vicinais, com uma nova fase prevista para o início de 2022. O investimento público mais do que se justifica pela geração de 1 mil empregos durante o pico das obras e outros 500 diretos e indiretos após o início da operação.


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