Vereadora rasga o verbo na Câmara

CHAVE VIRADA

Terminadas as eleições municipais, as atenções do meio político voltam a se direcionar aos assuntos do dia a dia, que sempre abrem espaço para novos debates, alguns estritamente ligados ao aspecto prático da administração, outros, não necessariamente, mas igualmente relevantes.

NO CENTRO

Uma das protagonistas das últimas sessões da Câmara de Lençóis Paulista tem sido Diusa Furlan (DEM). Sem se reeleger e, sabendo que deixará o posto, ela decidiu lavar a roupa suja acumulada nas semanas que lhe restam. Com isso, tem trazido à tona alguns assuntos antes limitados aos bastidores.

FORA DA LISTA

Na sessão da última segunda-feira, a vereadora tornou público um episódio que a incomodou bastante em 2017: a exclusão de seu nome da lista de convidados para a Semana da Família Cidadã, instituída no mesmo ano a partir da aprovação de um projeto de lei apresentado pela vereadora Mirna Justo (PSDB).

MILITANTE

A vereadora se mostrou estarrecida ao revelar que, depois de questionar Mirna sobre o motivo de ter sido ignorada, recebeu a justificativa que o evento não seria condizente com sua postura de ‘militante da causa gay’. Calma na maioria das vezes, subiu o tom para demonstrar sua indignação adormecida.

FLASHBACK

Para entender melhor a questão, é preciso recapitular outros dois fatos que remetem ao início da atual legislatura. O primeiro é um projeto de lei de autoria da professora, que propunha conceder a mulheres, idosos e deficientes físicos o direito de embarcar fora dos pontos do transporte público coletivo em horários de maior vulnerabilidade.

PARA TODOS

O projeto original destacava que deveria ser considerada a identidade de gênero autodeclarada, independentemente do que constasse em documento. A medida visava assegurar o mesmo direito a homossexuais que também poderiam ser vítimas de algum crime, mas foi suprimida por pressão da ala conservadora.

DEBATE

O segundo ponto diz respeito à própria instituição da Semana da Família Cidadã. Ao projeto de Mirna, Diusa apresentou uma emenda propondo que fossem realizados seminários que abordassem as diferentes configurações de família, como, por exemplo, as formadas por casais do mesmo sexo.

NÃO PODE

A ideia era que o evento, criado para promover reflexões sobre a importância e responsabilidade da família, não excluísse indivíduos que não se enquadram nos padrões tradicionais defendidos por uma parcela da sociedade. Como é possível imaginar, a vereadora foi pressionada a retirar a emenda da pauta.

BOCA NO…

Talvez por conta do perfil conciliador que tem, Diusa sempre evitou o embate político. Provavelmente pela inexperiência, acabou cedendo a todas as investidas que contrariaram suas convicções pessoais. Guardou cada frustração para si, mas, agora, embora tardiamente, resolveu se fazer ouvir.

…TROMBONE

Ainda que com atraso de mais de três anos, a professora confrontou em alto e bom som o posicionamento de Mirna Justo. Sem titubear, disse aos parlamentares e ao público que, desde que foi eleita, sempre militou por todas as causas da população, inclusive as do público LGBTQIA+.

SILÊNCIO

Ninguém ousou questionar ou rebater o discurso feito em tom enérgico de desabafo pela vereadora, nem Mirna Justo nem quaisquer que tenham sido os demais parlamentares contrários às proposituras. O episódio poderia passar despercebido, mas cabe, aqui, uma série de reflexões acerca de tudo isso.

MORAL?

O que havia de errado com as propostas? Nada. O errado é a segregação promovida a partir do fundamentalismo religioso infiltrado em um espaço que deveria ser usado para discutir o bem-estar de todo cidadão, sem exceção. Ninguém tem o direito de impor o que sua doutrina classifica como valor moral. Imoral é o desrespeito às diferenças.

IMAGEM

Se qualquer um poderia ter manifestado através do voto, por que houve um movimento interno para evitar que as pautas avançassem ao plenário? É notório que a maioria da sociedade é conservadora, mas quem quer se perpetuar na política não pode abrir mão de nenhum voto, não é mesmo?

BALANÇA

Aos caros representantes do povo, em exercício ou eleitos para o próximo mandato, vale destacar que o voto de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais tem o mesmo peso nas urnas; cada centavo pago em impostos por aqueles que não se enquadram nos padrões que tentam empurrar a todos goela abaixo tem exatamente o mesmo valor.

ARTIGO 5º

Que os nobres edis não se esqueçam do Artigo 5ª da Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza […]”. Mais do que isso, que se lembrem que em um Estado laico não se admite que um agente público seja guiado por viés religioso, muito menos que tente impor a todo custo suas convicções.

ENTRELINHAS

Como incontáveis exemplos de segregação, a homofobia precisa ser combatida pela sociedade, seja aquela observada nos pequenos atos do cotidiano ou aquela escondida nas entrelinhas das ações institucionalizadas, que, se não explicitamente, estimulam de forma velada que o desrespeito, a intolerância e o ódio continuem existindo.

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