Qualquer semelhança é mera coincidência?

TENSÃO

Sem muitas novidades vindas do Legislativo lençoense, o programa desta semana põe na pauta a política nacional e os acontecimentos que precedem um dos momentos de maior tensão da história recente do país: as manifestações marcadas para a próxima terça-feira (7), que colocam em segundo plano o 199º aniversário da Independência do Brasil e contribuem para potencializar o clima de instabilidade nacional.

TEMPOS SOMBRIOS

Desde o fim dos tempos sombrios de ditadura militar, do golpe que destituiu o então presidente João Goulart, em 1964, à saída de João Figueiredo, último dos cinco militares no poder, em 1985, o Brasil nunca experimentou um momento tão conturbado como o atual, em diversos aspectos, mas, principalmente, em relação aos princípios que regem a democracia, reconquistada a duras penas, ao custo de muitas vidas.

ASSASSINATOS

Oficialmente, de acordo com relatório da Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011 para investigar as graves violações dos Direitos Humanos ocorridas no período, 434 pessoas perderam a vida nas mãos do regime, sendo que 210 sequer tiveram seus corpos localizados. Os números não correspondem ao total exato de vítimas, apenas aos casos cuja comprovação foi possível em função do trabalho do órgão.

‘SUICIDADO’

Muitas das mortes foram forjadas para encobertar os crimes, como a do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida em 1975. Acusado de ter ligação ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), o então diretor de jornalismo da TV Cultura foi preso e torturado até perder a vida, mas teve o óbito atribuído a um suicídio, armado da forma mais grotesca possível, o que só foi reconhecido oficialmente em 2013.

NOS PORÕES

Além disso, estima-se que mais de 20 mil pessoas tenham sido perseguidas, presas e cruelmente torturadas nos nefastos porões da ditadura, principalmente depois de 1968, com a publicação do AI5 (Ato Institucional nº 5) pelo general Artur Costa e Silva, que deu poder de exceção aos militares para punir arbitrariamente os opositores e inimigos do regime ou quem quer que assim fosse considerado.

CENSURA

Isso, sem falar da censura, outro instrumento repugnante adotado no período como forma de repressão política e ideológica, sobretudo a veículos de comunicação e artistas, impedidos de manifestar o livre pensamento. Em Lençóis Paulista, inclusive, o então vereador Waldemar Geraldo da Motta, ao lado de outros cidadãos, chegou a ser preso em 1964 pelo simples fato de possuir livros de doutrina marxista.

IMPROPÉRIOS

Por mais absurdo que pareça defender qualquer conjuntura que abra caminho para que algo do tipo volte a ocorrer, não são raros os episódios observados nos últimos anos. O pretenso ato de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), marcado para a terça-feira, não foge à regra, pois corrobora com a escalada de impropérios que, há tempos, pauta o discurso controverso do mandatário da República.

RUPTURA

O constante ataque às instituições, principalmente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que age no sentido de descredibilizar a atuação do Poder Judiciário e macular a lisura do sistema eleitoral perante a opinião pública, são apenas alguns dos inúmeros indícios de ruptura com os preceitos constitucionais. Tudo isso ganha corpo com anuência de parcela da sociedade.

ACUADO

Embora se esforce para transmitir uma imagem de líder inabalável, Bolsonaro está acuado por uma série de investigações contra si próprio e aliados, incluindo seus filhos; pressionado por revelações cada vez mais comprometedoras no âmbito da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid-19; e estremecido pela queda de aprovação de seu governo, destacada em inúmeras pesquisas nos últimos meses.

BUSCANDO APOIO

Vendo o aumento da popularidade de seus possíveis adversários na corrida presidencial do ano que vem ameaçar sua permanência no poder, o presidente flerta com o golpe e busca, com o recrutamento de uma imensa rede incumbida de disseminar mentiras e desinformação, conquistar o apoio para uma possível investida contra a Democracia. Não há como não voltar o olhar para o passado.

MARCHA DA FAMÍLIA

Em 19 de março de 1964, exatos 12 dias antes do golpe que instaurou a ditatura militar, milhares de cidadãos da ala mais conservadora da sociedade, a maioria ligada a movimentos religiosos, iam às ruas para a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, manifesto contrário a reformas de base pretendidas pelo presidente João Goulart e o temor do ‘perigo comunista’, que muitos diziam rondar o país.

CAUSA E EFEITO

Mal sabiam eles que a marcha com Deus construiria os alicerces para a morada do diabo e a pretendida liberdade, que até então nunca havia sido deliberadamente cerceada, acabaria riscada por mais de duas décadas dos dicionários. Qualquer semelhança não é mera coincidência, mas, infelizmente, por ignorância ou limitação pessoal, nem todos aprendem o que a história tem a ensinar.

TODOS IGUAIS

Alguns lençoenses também devem ir às ruas no próximo dia 7, inclusive vereadores e cidadãos responsáveis por importantes instituições do terceiro setor. Nenhum deles se acanha em propagar discursos retrógrados, muitas vezes, sustentados por fake news. Vale tudo para defender o tal ‘mito’ pelo qual se sentem plenamente representados, afinal, todos são iguais e qualquer semelhança não é mera coincidência.


A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade.

Valorize o jornalismo profissional. Fuja das Fake News. Clique aqui e assine O ECO!

destaques