Provedor do Hospital Piedade confronta vereadores e ameaça abandonar UPA

QUENTE

A Câmara Municipal de Lençóis Paulista teve uma sessão acalorada na noite da segunda-feira (9), mas não por qualquer discussão habitual entre vereadores ou votação de algum projeto polêmico. O motivo foi a presença de João José Dutra, provedor do Hospital Piedade, que compareceu à Casa de Leis para rebater as críticas das quais havia sido alvo.

ATAQUE

No encontro anterior, ainda que sem qualquer citação nominal, João Dutra e o administrador hospitalar Luiz Otávio Vianna foram duramente criticados por alguns parlamentares lençoenses, principalmente por Nardeli da Silva (DEM), Andreia Zaratini (PSL) e Irani Gorgônio (PSDB), que integram a Comissão de Saúde e Assistência Social.

DESCONTENTAMENTO

Um dos pontos foi a desativação de parte da estrutura de enfrentamento à pandemia, mesmo com a circulação da variante Delta e riscos de uma terceira onda. Mas a revolta também partiu de reclamações que teriam sido feitas por funcionários, relatando problemas como corte de alimentação, demissões e proibição de uso de cobertores em horário de descanso.

EMBATE

Tudo foi exposto em declarações um tanto quanto ríspidas direcionadas a integrantes da diretoria do hospital e, como já era esperado, foi questão de tempo até que houvesse uma reação. A manifestação poderia ter ocorrido por meio de uma nota institucional ou coisa do tipo, mas a resposta aos ataques foi no plenário da Sala de Sessões Mário Trecenti.

TRIBUNA LIVRE

Valendo-se da Tribuna Livre, que possibilita que qualquer cidadão requeira a utilização do púlpito da Casa de Leis para dissertar sobre assuntos relevantes à sociedade, Dutra, delegado aposentado que atua voluntariamente na entidade, pediu direito de resposta e teve a solicitação atendida pelo presidente Jucimário Cerqueira dos Santos, o Bibaia (PODE).

CLIMÃO

Já se esperava uma noite extensa e tensa, mas o clima esquentou além da conta em diversos momentos ao longo de quase quatro horas, marcadas por trocas de farpas, diretas e indiretas entre vereadores, protestos do público, ameaça de encerramento da sessão, além, é claro, de um discurso visceral do provedor, que não se preocupou em medir palavras.

ULTRAJADO

Se dirigindo a Nardeli, Andreia e Irani, Dutra disse ter sido humilhado e ultrajado sem que houvesse uma breve investigação sobre as acusações. Destacou que ninguém procurou ouvir o outro lado antes de atacar e denegrir sua imagem e revelou que se sentiu ofendido, perdendo noites de sono por ter sido tachado como incompetente e irresponsável.

NA PONTA DA LÍNGUA

Levou argumentos para rebater todos os questionamentos, tanto no que compete ao Hospital Piedade, quanto em relação à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e demais serviços de urgência e emergência, bem como no que diz respeito ao PAC-19 (Pronto Atendimento à Covid-19), tudo mantido pela entidade por meio de convênios firmados com o município.

MOTIM

Refutou as acusações que chegaram ao conhecimento do Legislativo e não hesitou ao afirmar que tudo se resume ao descontentamento de um grupo de médicos insatisfeitos com perdas financeiras. Para ele, está havendo uma espécie de motim por conta do corte de plantões, consequência da já citada desativação de parte da estrutura de enfrentamento à pandemia.

MUITO MÉDICO

Ainda que seu posicionamento possa criar conflitos, não demonstrou preocupação por ter ‘comprado uma briga’. Pelo contrário, garantiu que ninguém receberá pagamentos que classificou como indevidos, justificando sua fala com referências à diminuição do número de internações. Em outras palavras, para o provedor, há pouco paciente para muito médico.

CRISE

Relatou que o hospital está com as finanças comprometidas e que, em meio à dificuldade para cobrir a folha salarial de R$ 730 mil, tem arcado com pagamentos que ultrapassam os R$ 67 mil em plantões médicos de Covid-19. Diante disso, garantiu que, a partir do domingo (15), deve manter só uma UTI e sob responsabilidade de apenas um médico por turno.

SOBERANO

Com respaldo do comitê de enfrentamento para a desmobilização parcial da estrutura, mas ciente do posicionamento contrário de parte do Legislativo, o provedor não perdeu a oportunidade de enfatizar que não precisa de anuência dos vereadores para nenhuma questão relacionada à administração do hospital, que tem uma diretoria eleita e soberana.

NÃO MANDA

Ficou clara a mensagem, pois, ao longo da noite, Dutra citou mais de uma vez, em alto e bom som, que vereador não manda no hospital. Mais do que isso, chegou a sugerir que Andreia Zaratini, que na semana anterior havia classificado a atual gestão como a pior dos últimos anos, comprasse um hospital para gerencia-lo da forma como julgasse melhor.

DOR DE CABEÇA

Sem dúvida, o que marcou o discurso do provedor foi a ameaça de abandonar a gestão da UPA. Classificando o episódio como injustiça e afirmando que a administração dos serviços de urgência e emergência só tem causado dor de cabeça ao hospital, cogitou não renovar o contrato firmado com a Prefeitura Municipal, que vence em março do ano que vem.

AJUDA

Mesmo com os embates, admitiu precisar do Legislativo em duas questões urgentes: a reativação da ala de quimioterapia, mantida em parceria com o Hospital Amaral Carvalho, que pode ser agilizada com influência política; e o pagamento do 13º salário dos funcionários, que dependerá da antecipação da transferência de economias do orçamento da Câmara.

DIRETO E RETO

Apesar do pedido, deixou claro seu posicionamento afirmando que quem quiser abraçar a causa será bem-vindo, só não deve esperar uma plaquinha de “vereador amigo do hospital”. Errado ele não está, mas, para alguns do que acompanharam, ainda que a faísca tenha sido acesa pela outra parte, faltou um pouco mais de diplomacia no discurso do provedor.

CAUSA E EFEITO

Os envolvidos evitaram confronto e até se desculparam, talvez por terem concluído que o assunto foi trazido a público de forma precipitada. Se as explicações convenceram plenamente ou se restou alguma aresta ainda não se sabe, mas muitos voltaram para suas casas com uma lição: quem fala o que quer, deve assumir o risco de ouvir o que não quer.


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