Bebendo, cheirando, fumando e fazendo neném…

CHATO

Está cada vez mais difícil acompanhar as sessões da Câmara Municipal de Lençóis Paulista sem se incomodar ou até mesmo se revoltar com colocações descabidas de vereadores sobre inúmeros assuntos relevantes e de interesse da sociedade. É chato generalizar, mas as aparições públicas de nossos distintos parlamentares estão se tornando uma coletânea de absurdos e impropérios.

NADINHA

Muitos dirão que é perseguição, mas não é razoável acreditar que ninguém tenha aprendido nada com a polêmica envolvendo declarações ofensivas à comunidade LGBTQIA+ por parte dos vereadores Leonardo Henrique de Oliveira, o Dudu do Basquete (CIDA), e Mirna Justo (PSDB), que até se tornaram alvo de uma Representação na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar por conta disso.

PÉS PELAS MÃOS

Infelizmente, não tem sido raro em nossa Casa de Leis ver alguém com toda boa intenção do mundo tomar a palavra para defender uma pauta de extrema importância e ‘meter os pés pelas mãos’ por falta de conhecimento ou, pior do que isso, por falta de noção de conhecimento, já que aqueles que acham que sabem demais nitidamente são os que menos se mostram abertos ao aprendizado.

E O BOM-SENSO

A ausência de filtro tem feito com que muitos percam a magnífica oportunidade de ficar no conforto do silêncio. Pela necessidade de mostrar serviço e justificar o salário ou pelo impulso instintivo de demarcar território, comum à classe política, aceita-se o perigo de avançar para campos nitidamente desconhecidos e, como consequência imediata e invariável, atropela-se o bom-senso.

LIMITES

Ninguém, vereador ou não, é obrigado a entender de tudo, tampouco em profundidade, mas todos, principalmente os que representam os interesses da população, precisam saber quais são os seus limites. Do contrário, banaliza-se o debate com discursos rasos que pouco ou em nada contribuem para o todo. Mais do que isso, assume-se o risco e as consequências de se falar demais.

PL73

Sem mais delongas, vamos direto ao episódio da vez, que teve origem no Projeto de Lei 73/2021, de autoria da vereadora Andréia Zaratini (PSL), que propõe a criação da “Semana de Prevenção e Conscientização sobre a Gravidez Precoce”. O sincero desejo é que as considerações a seguir soem como uma crítica construtiva, não como um ataque gratuito ou qualquer coisa do tipo.

DEVAGAR

A gravidez precoce traz inúmeras implicações e, de fato, precisa ser debatida em todos os níveis governamentais e institucionais da sociedade. É louvável que isso chegue ao Legislativo, mas a relevância do tema não dá margem para equívocos, como a ligação do problema praticamente como regra a outra questão delicada de ordem social, como a dependência química e alcóolica.

NOITADA

Foi o vice-presidente Nardeli da Silva (DEM) que abriu caminho para isso, generalizando que a gravidez precoce é resultado de noitadas de jovens drogados ou bêbados que não sabem o que estão fazendo. Para piorar, foi mais específico, atribuindo o ônus às mulheres, dizendo que as meninas estão bebendo, cheirando e fumando, completando que depois vem o sexo e, consequentemente, o neném.

GOROZINHO

Valdevino Miguel (PSC) protagonizou outro trecho dizendo que uma menina ‘fica’ com 10, 15 meninos durante a noite, toma um ‘gorozinho’, fuma uma coisinha e depois esquece de tudo. Quem também fez menção aos dois temas foi Irani Gorgônio (PSDB), que falou da necessidade de conscientizar os jovens sobre o assunto e citou como entrave a existência de muita droga e bebida.

SIM E NÃO

É óbvio que tanto a gravidez precoce quanto o uso de álcool e drogas por adolescentes são problemas graves e comuns na sociedade atual. Também não é novidade que, muitas vezes, a falta de estrutura familiar e outros fatores complexos de ordem social fazem com que ambos se cruzem na vida de alguém, mas não se pode colocar tudo no mesmo pote, até para que se dê a atenção devida a cada um.

SEM RÓTULO

Muitas questões podem desencadear uma gravidez precoce, inclusive, mas não necessariamente, fatores influenciados pelo uso de álcool ou drogas. Nem toda mãe adolescente é uma bêbada ou drogada. Ainda que fosse, não seriam os rótulos a solução. Pelo menos, ficou claro nos discursos de ambos o entendimento de que apenas a conscientização pode produzir efeitos significativos.

URGENTE

Todos concordaram que é preciso que o tema seja tratado de forma ampla e abrangente, das famílias às escolas. Especialistas garantem que a educação sexual trabalhada desde cedo, obviamente com abordagens condizentes com as limitações de cada idade, contribui para a formação de jovens mais conscientes e seguros, inclusive ao ponto de protegê-los contra possíveis abusos.

EDUCAÇÃO

Mas é preciso que ela, educação sexual, pare de ser marginalizada, criminalizada e demonizada em nome disso ou daquilo, da forma que já foi ali mesmo, no Plenário da Sala de Sessões Mário Trecenti, como no recente e já citado episódio envolvendo ataques ao público LGBTQIA+, com distorções da pauta em defesa de convicções e valores pessoais ou de determinados grupos. Simples assim.


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