Violência doméstica e feminicídio no contexto da pandemia

O mundo vive um momento hostil: a pandemia do novo coronavírus tem barrado a vida de inúmeras pessoas, deixando famílias inteiras enlutadas e a sociedade em estado de choque. Não obstante, o isolamento social – tão crucial para mitigar o contágio, está dando combustível para uma sombria realidade: os casos de agressão e violência doméstica contra as mulheres aumentaram drasticamente no mundo. Em São Paulo, por exemplo, os atendimentos da Polícia Militar às mulheres vítimas de violência aumentaram 44,9%* no contexto da pandemia. Os casos de feminicídio também acompanharam esta tendência, mostrando que a luta pelos direitos femininos deve ser um compromisso global. 
Nesta mesma linhagem, cuidei de uma pesquisa sobre feminicídio e crimes de gênero, da qual participaram, anonimamente, 46 mulheres brasileiras. As respostas mostram uma realidade que, embora muitas vezes fique debaixo dos panos, está escancarada até para cego ver.
O assédio é, de longe, um dos problemas mais recorrentes e uma conduta presente em todos os cantos. Do total de entrevistadas, 69,9% disseram ter sido vítimas de assédio nas ruas. No trabalho, 15,2 %. Com parentes, 8,7%, e em festas, 6,5%. 
Mas não para por aí. 82,6% disseram ter uma amiga ou parente que foram vítimas de agressão física e estupro. Neste panorama, 93,5% das entrevistadas conhecem uma vítima fatal do feminicídio, o crime de ódio que resulta no assassinato de mulheres.
Questionadas sobre agressão ou preconceito, muitas disseram ter sofrido abusos sexuais, agressões de namorados e maridos. Outras foram vítimas de preconceito no trabalho, seja pelo fato de serem mulheres ou terem se tornado mães. A maioria dos chefes acham que a capacidade intelectual da mulher não será a mesma após a maternidade, o que denota um pensamento extremamente machista. Para certos cargos de liderança, por exemplo, há mulheres que são descartadas justamente pela vaga ter um perfil masculino.
Por outro lado, pensemos no termo empoderamento, que para elas possui significados abrangentes. Entre tantas respostas, algumas foram unânimes: ser independente emocionalmente e financeiramente, ser livre para expressar sua opinião e vontades sem se importar com o que os outros irão pensar. Trabalhar e lutar pelos seus objetivos e não se curvar ao preconceito. Ser autêntica, determinada. Ser o que quiser ser, tendo ciência de seus direitos. Mas entre tantas respostas, uma me chamou a atenção: ser uma mulher empoderada é ser uma mulher que ainda não existe, que pode andar sem medo. É com essa reflexão que encerro esta matéria.
Em meio a tantos casos de crimes e violência doméstica, será que as mulheres realmente podem levar uma vida tranquila? Até quando as definições de empoderamento farão parte de um sonho parcialmente concretizado? Precisamos de um mundo consciente. Consciente do direito de igualdade e do dever de respeito entre os gêneros. Só assim reverteremos essa realidade; e as mulheres serão protagonistas livres de seu próprio legado. A prerrogativa de que elas são o lado mais fraco da corda precisa dar lugar urgente à equidade. Porque é isso o que elas fielmente representam em nossa sociedade: a força motriz do futuro, do presente e do passado. 
*Fonte: Agencia Brasil
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