O fenômeno da amizade

Em tese, o ser humano é um animal gregário. Não consegue viver só. Ao buscar companhia, identifica afinidades em pessoas que vai colecionar mediante a aposição de uma espécie de carimbo: amigo!

O que é um amigo? Há um conto clássico de Oscar Wilde, a retratar a ‘amizade’ entre um jardineiro e um moleiro. Este invocava a circunstância de ser o melhor amigo do jardineiro e o explorava continuamente. Até que chegou o inverno e o pobre jovem que cultivava o jardim não possuía estufa. Acabou morrendo. Até depois da morte, o moleiro ainda se considerava o único amigo da vítima.

A indagação que se faz é se há deveres em relação aos amigos. Não se cuida de conceito de justiça comutativa. Alguém que quer ser um bom amigo de alguém, deve querer o bem desse alguém.

Para responder à indagação – Por que devo respeitar o bem do meu amigo? – a filosofia desenvolveu três linhas de resposta. A primeira é a utilitarista. É evidente que é útil procurar a maior felicidade para o maior número de pessoas. Dentre estas, meu amigo e eu.

Todavia, o princípio da utilidade ou da melhor felicidade não deixa de ser uma fórmula linguística. Não tem significado racional, mas parece indicar uma confortável norma de comportamento.

A segunda linha não é mais convincente. Aduz que devo ser justo e procurar o bem do meu amigo, para minha própria satisfação. Satisfarei ao meu amor-próprio, considerando-me uma pessoa boa, de bons princípios.

Já a terceira apela para a transcendência. O ser racional foi criado e sua permanência neste planeta é transitória. Merecerá destino posterior, compatível com o que fizer durante as poucas décadas que esta vida frágil e curta que lhe foi dada. A regra de ouro é conhecida: não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem a você. O paroxismo está no “amar ao próximo como a si mesmo”.

Algum próximo é amorável. Mas não é atributo da maior parte daqueles com os quais convivemos. Na verdade, há pessoas que parecem existir para nos santificar, ou seja, são desagradáveis, interesseiras, até cruéis. Impossível devotar a estas, aquele sentimento espontâneo que se nutre em relação aos “pássaros de igual plumagem”.

Ninguém desconhece o preceito judaico-cristão. Mas segui-lo não é fácil. Há quem o considere de inviável observância. As relações contemporâneas são superficiais, alicerçadas no interesse. Aproximo-me de quem me possa propiciar alguma vantagem, algo que considero bom. Afasto-me quando já não posso esperar que a relação me sirva.

Amizade mesmo, é algo cada dia mais rara. Um fenômeno que existiu em larga escala, ainda existe em alguns nichos, mas não é material abundante numa sociedade narcisista, egoísta, imediatista e interesseira.

Se você é um afortunado que pode contar com ao menos um amigo, considere-se um privilegiado. Como diz Milton Nascimento, “amigo é coisa pra se guardar a sete chaves, no lado esquerdo do peito”…


José Renato Nalini

JOSÉ RENATO NALINI Doutor em Direito pela USP (Universidade de São Paulo), José Renato Nalini já exerceu muitos cargos importantes no estado de em São Paulo, de desembargador do Tribunal de Justiça a secretário de Educação. Atualmente, é reitor e docente universitário e preside a Academia Paulista de Letras (APL). Nesta coluna, aborda assuntos variados do cotidiano.


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