A criança difícil: entendendo o comportamento desafiador e opositivo

Não é de hoje que crianças que apresentam problemas de comportamento agressivo e desobediência têm sido motivo de preocupação aos pais, professores e profissionais que lidam com esse público. Nem sempre é fácil identificar quando se trata de uma fase comum do desenvolvimento ou o início de um transtorno. 

É normal observarmos comportamentos desafiadores em crianças entre 18 e 24 meses, pois essa é a fase em que a criança começa a expressar sua autonomia e, nesse período, crises de birra são muito frequentes.      

Por volta dos quatro anos de idade, coincidindo com o início do percurso escolar, as crianças começam a perceber melhor o outro e a colocarem-se no lugar do outro. É nesse momento que começam a perceber que não são o “centro do universo”. O ser humano é, a princípio, egocêntrico e, na medida que amadurece, precisa ser ensinado a cooperar e colaborar. 

Nesse processo, são comuns idas e vindas, pequenas conquistas seguidas de recuos e muitas crianças testam os limites dos pais e professores a todo o instante. Entretanto, em algumas crianças, o comportamento extrapola o esperado para a idade. Elas se mostram facilmente irritadas, perdem a calma com muita facilidade e começam a apresentar dificuldades em obedecer às regras na família e na escola.

Muitas vezes, apresentam comportamentos vingativos, desafiadores com pais e professores, ficando ressentidas com muita frequência e com muita facilidade. Com o passar dos anos, os prejuízos acadêmicos e nos relacionamentos vão ficando mais sérios, comprometendo o futuro da criança.         

Nesse momento podemos estar diante de um transtorno denominado Transtorno Opositivo Desafiador. As causas desse transtorno são complexas. Pesquisas têm mostrado que ele é mais presente em meninos do que em meninas e que sua causa pode estar relacionada à interação de fatores biológicos, individuais e familiares.

Além do tratamento adequado (acompanhamento médico e psicológico), alguns ajustes na rotina da família podem ajudar na resolução do problema, tais como: dedicar um tempo maior ao filho e à família; incentivá-lo à pratica de esportes (principalmente em grupo); estabelecer regras e limites claros na família; elogiar sempre que possível as conquistas e bons comportamentos apresentados e, principalmente, nunca fazer uso de punições físicas, elas nunca devem ser uma alternativa, pois podem reforçar os comportamentos agressivos.

Fique atento aos sinais. Reconhecer precocemente o que acontece com a criança e seus relacionamentos pode alterar definitivamente o ser humano que ela virá a tornar-se.


Fábio Luiz Vicente

FÁBIO LUIZ VICENTE – Psicólogo clínico e neuropsicólogo, especialista em Neuropsicologia pelo Centro de Estudos Psico-Cirúrgicos da Divisão de Psicologia do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo). Atua há mais de 20 anos em consultório particular atendendo crianças, adolescentes e adultos. Nesta coluna, fala sobre diversos temas relacionados à Psicologia.

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