O Carnaval lençoense de 1938 nas páginas d’ O Eco

Após a passagem do Natal e do Ano Novo, milhões de brasileiros aguardam ansiosamente pelo Carnaval, data móvel definida em função do domingo de Páscoa, que, por sua vez, é fixado após o equinócio de Primavera no Hemisfério Norte. O Rio de Janeiro, capital do país até a inauguração de Brasília, em 1960, abriga um dos festejos mais desejados pelos foliões nacionais e estrangeiros, que desde as primeiras décadas do século XX viajam à cidade “berço do samba” para a folia do Rei Momo, personagem mitológico tornado símbolo da celebração.

O Carnaval carioca consolidou-se, ao longo do tempo, com uma das opções mais requisitadas em virtude de sua diversidade de atividades (bailes, blocos de rua e desfiles de escolas de samba). Outras cidades como São Paulo e Salvador também se empenharam em seus festejos e nas últimas décadas passaram a disputar espaço com a capital fluminense. Mas cidades menos populosas também não se privaram da folia e desenvolveram, a seu modo, circuitos principiados com os tradicionais bailes de salão.

Em Lençóis Paulista, desde os últimos anos da década de 1930, se observa a formação de grupos interessados em movimentar a “quieta e pacata cidade” nesta época do ano. O jornal O ECO (E’Cho na grafia arcaica), fundado por Alexandre Chitto, foi um dos principais veículos de divulgação do Carnaval lençoense, além de constituir-se como um dos pioneiros na promoção dos concursos de fantasias no município.

Em 1938, quando O ECO iniciou seus trabalhos, o Carnaval era comemorado em “bailes pré-carnavalescos” e “bailes carnavalescos”. Os primeiros normalmente aconteciam na semana anterior ao Carnaval e eram festas de menor proporção, dedicadas aos jovens, que estendiam o clima de entusiasmo até o fim de semana seguinte, quando ocorriam os bailes tradicionais.

Em 6 fevereiro de 1938, os responsáveis pelo periódico noticiam o “primeiro grito do carnaval lençoense”, o pré-carnavalesco Baile Camisa-Listrada, organizado por rapazes e senhoritas que decidiram se vestir com camisas listradas e comemorar ao som de marchas e sambas.

O referido evento aconteceria na Rua Quinze de Novembro, nas dependências do Cine Guarany. O espaço contava com decoração luxuosa patrocinada pela empresa Moreira & Cia e ambientado por repertório musical de “discos das últimas novidades musicais do carnaval de 1938” (O E’CHO, 1938). O texto enfatiza a seleção das melodias e sugere que o sucesso da festa estava em sua conexão com o que mais novo se tinha conhecimento em música. A mocidade era então chamada ao “maior e mais belo baile carnavalesco” (O E’CHO, 1938).

Na edição seguinte, 13 de fevereiro, O ECO destacou a posição de um cidadão anônimo acerca do Baile Camisa-Listrada. Assinado pelo Folião nº 01, o festejo efusivamente propagandeado no número anterior foi descrito como “pra lá de bom”, superando todas as expectativas. Com o mesmo entusiasmo, convidou a população para os bailes seguintes, em que se destacariam os “concursos para as melhores fantasias, batucada grossa, coisas do barulho para todos” (O E’CHO, 1938).

Em 20 de fevereiro o Folião nº 01 apresenta-se novamente, prometendo “uma avalanche gloriosa de música” no “feudo de S. M. o rei Momo”. Naquele ano, a Sociedade Italiana promoveu três bailes e o Cine Guarany outros três. A Rua Quinze, que sediava o Cine e a redação d’O ECO, era o ponto de encontro e concentração dos foliões que aguardavam o início dos bailes. Em 1938 a agitação parecia ser ainda maior, pois o jornal promoveria um concurso de fantasias. Os assinantes receberam no rodapé do exemplar, cupons a serem depositados na urna de votação (veja na galeria).

O resultado foi divulgado na edição de 06 março, com o fim da cobertura sobre o Carnaval, e sugere a disputa acirrada entre os participantes. A diferença entre o primeiro e o segundo colocado foi de apenas oito votos. A classificação se deu da seguinte maneira: “1º lugar – Terezinha Bosi, 584 votos; 2º lugar – Hilda Ciccone, 576. 3º lugar – bloco “Os Galãs”, 402. 4º lugar – Olga Biral, 127. 5º lugar – Anita Garcia, 39” (O E’CHO, 1938).

Os números de votantes indicam uma massiva adesão aos bailes, mormente por tratar-se de eventos fechados. Apontam o interesse pelas novidades que chegavam, caso da busca pela atualização das músicas pelo grupo Camisa-Listrada, assim como pelo desejo de competição no concurso de fantasias.

É possível verificar como a fundação de um periódico em época tão festiva impulsionou e deu visibilidade aos bailes nos anos subsequentes. O surgimento de O ECO e seu enfoque de um mês no Carnaval de Lençóis Paulista parece ter estimulado os foliões na participação dos eventos, demonstrando o poder da palavra impressa na década de 1930.

Fontes consultadas:
O E’CHO: Orgam Semanal, Lençóis Paulista, 1938 – 06/02 | 13/02 | 20/02 | 27/02 | 06/03


Eduardo Neves

EDUARDO NEVES – Graduado em História pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), mestre em História pela Unicamp (Universidade de Campinas) e doutorando em História Social pela USP (Universidade de São Paulo), Eduardo Neves, recém-chegado a Lençóis Paulista, apresenta nesta coluna suas impressões acerca da história local, tendo como ponto de partida o acervo de O ECO.


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