Lençóis Paulista e o interventor Ademar de Barros: reminiscências políticas

Capa da edição do dia 8 de maio de 1938 (Foto: Arquivo/O ECO)

Em 15 de novembro serão realizadas em todo o país eleições municipais para escolha de membros do Executivo e do Legislativo para os próximos quatro anos (uma legislatura). Como consolidado na Constituição de 1988, o pleito se dará de maneira direita e com sufrágio universal. Por meio do auxílio do sistema eletrônico de votação, poucas horas após o término do processo, os brasileiros conhecerão os eleitos para o mandato de 1 de janeiro de 2021 a 31 de dezembro de 2024. Mas você sabia que este procedimento nem sempre foi adotado em nosso país? Você já ouviu falar em interventor?

Ao longo do Estado Novo (1937-1945), período da administração do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), a nova Constituição (1937) extinguiu a Justiça Eleitoral e os partidos políticos. As eleições para o Executivo Federal foram tornadas indiretas e o mandato estabelecido em seis anos. Cabia ao presidente da República a escolha de interventores que assumissem nos estados “as funções que, pela sua Constituição, competirem ao Poder Executivo” (BRASIL, 1937). Entre as atribuições dos interventores, também chamados de governadores dos estados, estava a livre nomeação dos prefeitos, permitindo, deste modo, certo controle político em seus diversos níveis e o alinhamento das governanças com a administração de Vargas.


Em abril de 1938, Ademar de Barros (1901-1969) foi escolhido como novo interventor de São Paulo, fato que não escapou aos olhos atentos de O ECO, ao estampar a notícia em primeira página na edição de 8 de maio. Naquela circunstância, o jornal buscou traçar um perfil biográfico do político, tratando de sua trajetória política, mas, sobretudo, de seu vínculo com a região. Destacou que desde o nascimento, Barros se fixou em São Manuel, mudando-se da cidade para prosseguir seus estudos superiores na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Salienta, ainda, que o interventor possuía importante fazenda cafeeira em Lençóis Paulista, localizada no distrito de Alfredo Guedes, e que sua escolha para chefiar São Paulo traria “auspiciosos” benefícios para a cidade.


O tom utilizado por O ECO para tratar da figura de Ademar de Barros sugere seu apoio ao político, em especial por sua proposta de investimento nos setores agrícola e industrial, salutar às finanças lençoenses na década de 1930. Entre as promessas do interventor que animaram os fazendeiros estavam: “libertar o café de todas as suas dificuldades, atenuando ou suavizando o seu martírio atual” e o amparo “quanto possível [do] Comércio, a Indústria e a Lavoura, dando-lhes a sua decidida cooperação”. (O E’CHO, 1938) Assim sendo, na perspectiva do periódico, Barros seria importante para o desenvolvimento da agricultura na região, mormente por possuir investimentos na produção cafeeira.


Se Ademar de Barros parecia ter trazido certa animação para Lençóis no início de 1938, o mesmo se deu com a escolha do novo prefeito, após o pedido de exoneração de Jácomo Nicolau Paccola, que permaneceu no cargo por dois anos. O antigo prefeito deixou a prefeitura poucos dias após a nomeação do interventor, alegando “grandes afazeres de suas propriedades” (O E’CHO, 1938). Sua administração, apesar de não criticada, foi caracterizada por O ECO como “sutil”, resolvendo problemas de primeira necessidade, a exemplo da abertura e manutenção de estradas e a remodelação de ruas. Em seu lugar foi escolhido Bruno Brega, a quem O ECO atribuiu excelente impressão por suas qualidades pessoais e por ser partidário do antecessor. Nos termos do jornal: “Tanto o sr. Paccola como o sr. Brega pertenciam ao extinto P.R.P. o que significa que a mudança do chefe do Executivo lençoense obedeceu a uma perfeita comunhão de vistas entre o antigo perrepismo local”. (O E’CHO, 1938).


A sucessão de prefeitos oriundos de uma mesma agremiação partidária – P.R.P. (Partido Republicano Paulista), legenda que também participou Ademar de Barros – demonstram o protagonismo de políticos de perfil similar nos círculos sociais de Lençóis Paulista e sua forte ligação com o que se propunha em outras instâncias do poder constituído. A afirmação do jornal acerca do alinhamento de princípios entre Paccola e Brega corrobora com este argumento. Nesta perspectiva, as redes políticas se constituíam em conformidade aos anseios de desenvolvimento da agricultura local e do “progresso”, aqui entendido como uma maneira de ampliar a atuação e expressão da cidade na dimensão regional e estadual. A nomeação de Ademar de Barros foi entendida como expressiva pelos lençoenses empenhados na produção agrícola e o primeiro passo para a execução de uma proposta de “desenvolvimento” e “modernidade” para a cidade, atrelada aos interesses da elite agrária local.

Fontes consultadas:
BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil. 10 de novembro de 1937.
MAYER, Jorge Miguel. Ademar de Barros. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010.
O E’CHO: Orgam Semanal, Lençóis Paulista, 1938. 09/05, 15/02, 22/05
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Eduardo Neves

EDUARDO NEVES – Graduado em História pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), mestre em História pela Unicamp (Universidade de Campinas) e doutorando em História Social pela USP (Universidade de São Paulo), Eduardo Neves, recém-chegado a Lençóis Paulista, apresenta nesta coluna suas impressões acerca da história local, tendo como ponto de partida o acervo de O ECO.


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