O ECO e a Independência

Capa da edição do dia 3 de setembro de 1972 (Foto: Arquivo/O ECO)

O 7 de setembro de 1822 é anualmente retomado a partir de distintos aspectos ou/e perspectivas de análise para resgatar e dotar de significação o processo de emancipação político-administrativa do Brasil. Tornado feriado nacional e comemorado anualmente com os tradicionais desfiles cívicos. A data, assim como o 15 de novembro, Proclamação da República, tornou-se marco temporal para a periodização da história do Brasil, sendo reinterpretada e reapropriada ao longo do tempo, demonstrando as leituras do presente sobre o passado.

No âmbito regional, O ECO é fonte importante para visualizar como as narrativas sobre a Independência foram destacadas nas últimas décadas do Século XX. Neste sentido, é possível identificar tanto um noticiário que salienta a festividade e importância da data para a construção nacional, como textos dedicados a trazer ao público leitor informações biográficas sobre os principais personagens associados à conjuntura estabelecida em 1822.

Deste modo, durante a campanha de nacionalização empreendida por Getúlio Vargas no Estado Novo (1937-1945), o periódico semanal destacou em primeira página a necessidade de valorização dos símbolos nacionais e o exercício do patriotismo. Chamou os lençoenses a estender a bandeira do Brasil em suas casas, gesto “inédito na história de Lençóis Paulista” e “demonstrativo da fé inquebrantável do povo de Lençóis depositado nos promissores destinos do Brasil”. (O ECO, 1942).

Três décadas depois, em 1972, quando do sesquicentenário da Independência, a edição de O ECO foi produzida em tons de verde e amarelo, destacando uma imagem do General Emilio Garrastazu Médici, então presidente da República, ao lado de uma saudação aos 150 anos da data, alocada entre os brasões do Brasil e do estado de São Paulo. Na homenagem, buscava-se destacar as ideias de “nação coesa” e “defesa das suas tradições” no “recanto Paulista”, como a cidade de Lençóis Paulista é mencionada. (O ECO, 1972).

Passados mais dezesseis anos, o destaque era a Constituição de 1988, alcunhada de “Cidadã”. A Independência foi mencionada apenas na quarta página e em letras miúdas, a partir de perfil biográfico escrito por Alexandre Chitto. Intitulado D. Pedro I, trata-se de uma descrição do percurso do primeiro Imperador, de seu apogeu à crise da Abdicação. Por meio de descrição do espaço urbano de São Paulo, o editor-chefe do jornal procurou referenciar o contexto em que o “Príncipe Real” estava inserido, suas decisões políticas e os embates pelo trono português após a morte de D. João VI.

Com linguagem simples e didática, o texto busca ser informativo e não crítico, chamando atenção para o conturbado cenário da década de 1820 e Pedro I como figura central. O escrito de Alexandre Chitto chama atenção por ser uma das poucas menções alongadas ao século XIX em O ECO, dedicado em maior medida aos festejos que o 7 de setembro proporcionava à cidade ao longo da República.

As edições aqui mencionadas demonstram a variedade de abordagens com que a Independência foi tratada em mais de cinquenta anos de circulação do jornal. Pesquisas mais atentas e aprofundadas podem caracterizar e compreender como esses escritos se alteraram ao longo do tempo e de que maneira eram recebidos. O simbolismo da data e as tentativas de regaste da memória pátria a partir de episódios e personagens selecionados são um ponto de partida àqueles que desejarem desbravar a história local e nacional.

Fontes consultadas:
O ECO: Órgão Semanal, Lençóis Paulista, 6 de setembro de 1942.
O ECO: Órgão Semanal, Lençóis Paulista, 3 de setembro de 1972.
O ECO: Órgão Semanal, Lençóis Paulista, 3 de setembro de 1988.


Eduardo Neves

EDUARDO NEVES – Graduado em História pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), mestre em História pela Unicamp (Universidade de Campinas) e doutorando em História Social pela USP (Universidade de São Paulo), Eduardo Neves, recém-chegado a Lençóis Paulista, apresenta nesta coluna suas impressões acerca da história local, tendo como ponto de partida o acervo de O ECO.


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