Após cinco anos de enchente histórica, prevenção é palavra de ordem em Lençóis

Com auxílio da tecnologia, cidade monitora bacia hidrográfica do Rio Lençóis para garantir que os riscos de novas inundações sejam mínimos

A maior enchente da história de Lençóis Paulista completou cinco anos na última quarta-feira (13). Desde a madrugada daquela fatídica quarta-feira de 13 de janeiro de 2016, na qual centenas de famílias ficaram desalojadas e dezenas de comerciantes e empresários tiveram seus locais de trabalho destruídos pelas águas do Rio Lençóis, a cidade tem adotado diversas medidas preventivas por meio da Defesa Civil e do CGBH-RL (Comitê Gestor da Bacia Hidrográfica do Rio Lençóis).

Para Gerson Gomes dos Santos, sargento da reserva do Corpo de Bombeiros, que recentemente assumiu o posto de coordenador da Defesa Civil local, apesar do bom trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos, sempre há o risco. Por isso, os profissionais envolvidos na parte preventiva estão sempre em alerta em períodos de chuvas intensas, como os meses de janeiro, fevereiro e março.

“Estamos monitorando constantemente. Usamos a telemetria (monitoramento via satélite através de sensores espalhados pela bacia hidrográfica) para o caso de precisarmos realizar uma evacuação de emergência e o acolhimento de abrigados. Também estamos sempre alertando a população e informando através das redes sociais e veículos de comunicação, para que as pessoas fiquem atentas”, explica.

De acordo com o coordenador, o trabalho se concentra principalmente nas áreas de maior risco de alagamentos, como as vilas Contente e Repke. “As casas, principalmente na Vila Contente, foram construídas em uma área de várzea, em que escoam todos os materiais e sedimentos. Nós, da Defesa Civil estamos usando a tecnologia e a ciência para poder mitigar possíveis ocorrências no futuro”, aponta.

O sargento diz que a enchente deixou sequelas na cidade que ainda estão vivas na memória de muitos lençoenses, mas assegura que a Prefeitura Municipal tem uma preocupação muito grande e está sempre fazendo o possível para evitar que o que aconteceu no passado se repita.

“Ainda faltam alguns aparelhos e recursos. Não é fácil correr atrás disso, porque há um entrave político e outras cidades que também estão em busca desses recursos. Mas o trabalho segue sendo executado e vamos continuar fazendo o possível, lutando por isso, para poder guarnecer a cidade e garantir a segurança da população lençoense”, conclui Santos.

CGBH-RL já investiu mais de R$ 3,2 milhões

Criado entre o final de 2016 e o início de 2017, o CGBH-RL já executou diversas ações para prevenir novos desastres como o ocorrido há cinco anos. Em setembro de 2019, o órgão, composto por representantes do Poder Público, iniciativa privada e sociedade civil, concluiu a implantação da rede hidrométrica para controles de enchentes, que tornou a bacia composta pelo Rio Lençóis e mais de 50 afluentes, a primeira do estado com 100% de monitoramento.

Por meio do trabalho desenvolvido pelo CGBH-RL com apoio de empresas das cidades que compõem a bacia hidrográfica (Agudos, Borebi, Lençóis Paulista, Macatuba, Areiópolis, São Manuel e Igaraçu do Tietê), os dados coletados pelas várias estações telemétricas instaladas ao longo dos cursos d’água são enviados via satélite para uma plataforma unificada, que realiza a análise das informações. Os investimentos ultrapassam a casa dos R$ 3,2 milhões.

No final de dezembro o CGBH-RL anunciou que, em decorrência do período crítico de chuvas, que deve se estender até o final de março, foram expedidas ordens de rebaixamentos de 14 represas, que servirão como reservatórios de amortecimentos. “Vamos passar de 1,1 milhão para 1,3 milhão de metros cúbicos no volume de amortecimento de cheias. Também aumentarmos a capacidade de transposição do Rio Lençóis de 245 mil para 350 mil metros cúbicos por hora”, disse, em nota, o comitê.

Tragédia deixou um rastro de destruição pela cidade

Na segunda semana de janeiro de 2016, a região da bacia hidrográfica do Rio Lençóis foi atingida por um grande volume de chuva que totalizou 350 milímetros, cerca de 200 apenas entre a noite do dia 12 e a madrugada do dia 13, o que, por si só, já seria suficiente para causar estragos no município. Mas o fato, aliado ao rompimento de 16 represas em Agudos, Borebi e Lençóis, fez o nível do rio subir mais de cinco metros, o que resultou na pior enchente da história da cidade.

Mais de três quilômetros da área urbana às margens do rio ficaram praticamente submersos. Em alguns pontos, a água subiu três metros acima do nível da rua, deixando apenas os telhados expostos. Pontes e prédios públicos e privados foram destruídos. Segundo levantamento da Defesa Civil, na época, mais de 400 imóveis foram alagados e por volta de 800 pessoas ficaram desalojadas, precisando ser abrigadas em casas de familiares e no Ginásio Municipal de Esportes Archangelo Braga Primo (Csec).

Além do prejuízo material estimado em R$ 75 milhões, foram registrados dois óbitos em decorrência da enchente. Jean Miguel Batista Pereira, de 28 anos, morador da Cecap, foi encontrado morto enroscado em galhos de árvore nas proximidades do Jardim Primavera, depois de ter sido arrastado pela correnteza no dia da inundação. No dia 2 de abril, Denis Marcelo da Silva, de 30 anos, morreu ao cair com sua motocicleta na cratera deixada pela queda da ponte que dá acesso à Vila Repke.

Apesar de ações, Prado diz que é preciso manter atenção redobrada

Também como parte da prevenção, a Prefeitura Municipal de Lençóis Paulista conseguiu viabilizar a desapropriação de imóveis localizados em áreas de risco da Vila Contente, um dos pontos historicamente mais atingidos pelas enchentes. No ano passado, após firmarem um acordo com o município, 39 famílias deixaram suas casas e se mudaram para o conjunto habitacional construído no prolongamento do Jardim Ibaté. As moradias foram demolidas para ampliação dos dispositivos de contenção.

O prefeito Anderson Prado de Lima (DEM), que também preside o CGBH-RL desde 2017, comenta sobre as inúmeras ações realizadas ao longo dos últimos anos, como o plano de evacuação das áreas de risco, testado todos os anos através de um simulado, a redução do volume de represas, monitoramento telemétrico e a própria desapropriação das casas, mas reforça a necessidade de manter a atenção redobrada em períodos críticos de chuva.

“Muitas coisas foram feitas nesse sentido (de prevenção), começando pela estruturação tanto do CGBH-RL, que é um órgão colegiado e regional, já que o problema não é apenas de Lençóis Paulista, como da Defesa Civil. Mas temos que ter humildade diante da natureza e reconhecer que, apesar de tudo que foi feito, ainda há muito por fazer. É importante lembrar que a cidade segue em Estado de Alerta até março. Vamos ficar todos atentos”, completa.

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