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Páginas da vida de um imortal
Orígenes Lessa escreveu uma bela história de vida, destacada não apenas pela sua trajetória, mas também pelo amor a Lençóis
Páginas da vida de um imortal
ESPECIAL - Orígenes Lessa tinha uma relação de amor com Lençóis Paulista (Foto: Acervo/BMOL)
O cidadão mais ilustre de Lençóis Paulista faria 115 anos em 2018. Orígenes Ebenezer Themudo Lessa chegava ao mundo no dia 12 de julho de 1903 para escrever uma bela história de vida, destacada não apenas pela sua brilhante trajetória na literatura, no jornalismo e na publicidade, mas também por sua relação de amor com sua cidade natal, a qual adotou de corpo e alma através da biblioteca batizada com seu nome, contribuindo para torná-la referência em todo o país.
Apesar da forte ligação com sua terra, o segundo dos seis filhos do casal pernambucano Henriqueta Pinheiro Themudo Lessa e Vicente Themudo Rego Lessa, morou pouco tempo por aqui. Aliás, durante toda a infância e juventude sua vida foi de recomeços, já que a família se mudava constantemente por conta do pai, que além de professor e historiador era pastor protestante e se dedicava à atividade missionária.
Foi por este motivo que a família chegou por aqui, por volta de 1900. Vicente Themudo Lessa era pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual depois se desligou para ser um dos líderes do movimento que resultou na criação da Igreja Presbiteriana Independente, que teve um dos primeiros templos criados justamente em Lençóis Paulista, em 1903.
Em 1906, deixou a cidade com os pais rumo a São Luís, capital do Maranhão. Foi lá que Orígenes viveu até os nove anos e teve os primeiros contatos com as letras e o universo literário. Há quem diga que foi nesse período, com apenas seis anos, que ele escreveu o seu primeiro livro, intitulado “A Bola”. Não existe confirmação dessa informação, porém, o que se sabe com certeza, é que o escritor se inspirou nos anos vividos em São Luís para escrever um de seus maiores sucessos, “Rua do Sol”, de 1955.
Entre 1912 e 1922 morou com a família na cidade de São Paulo, vivendo como qualquer garoto de sua idade, mas sempre muito apegado aos livros. Saiu de casa em 1922, para fazer a vontade do pai, que queria vê-lo seguindo seus passos e o convenceu a ir para um seminário protestante, também na capital paulista. Até que se dedicou à causa, mas dois anos depois percebeu que o destino lhe reservava algo diferente.
ESCREVENDO A PRÓPRIA HISTÓRIA
Decidido a trilhar o próprio caminho, Orígenes, então com 21 anos, se mudou para o Rio de Janeiro, onde enfrentou muitas dificuldades e chegou até a dormir na rua, mas conseguiu se estabelecer. Se formou em educação física e foi dar aulas de ginástica, mas acabou ingressando no jornalismo, escrevendo os primeiros artigos no jornal O Imparcial.
Em 1928, chegou a frequentar a Escola Dramática do Rio de Janeiro, mas no ano seguinte regressou a São Paulo, onde se lançou definitivamente no meio literário publicando sua primeira seleção de contos: “O Escritor Proibido”. Paralelamente à insipiente vida de escritor, permaneceu no jornalismo colaborando com veículos como o jornal Diário da Noite, a revista A Cigarra e a rádio Record.
Em 1932, combateu na Revolução Constitucionalista e acabou sendo preso e enviado ao presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde ficou por três meses. Quando foi libertado, como não poderia deixar de ser, relatou as experiências em duas novas publicações: “Não há de ser nada”, de 1932, e “Ilha Grande”, de 1933.
No mesmo ano, como tinha adquirido certa experiência trabalhando como tradutor no departamento de propaganda da General Motors do Brasil, recebeu um convite para ser redator na N.W. Ayer & Son, uma agência de publicidade com a qual colaborou por mais de 40 anos.  Sim, ele também foi publicitário, e dos bons, sendo considerado um dos mais conceituados de sua época pela atuação em diversas campanhas de sucesso, como a que resultou na criação da marca Kibon para uma companhia de sorvetes dos Estados Unidos que queria se instalar no Brasil. Poucos sabem, mas, inclusive, foi ele o primeiro a presidir, entre 1937 e 1938, a APP (Associação Paulista de Publicidade).
1938, aliás, foi o ano do lançamento de seu maior sucesso literário: “O Feijão e o Sonho”, que teve dezenas de edições publicadas em diversos idiomas e acabou se tornando novela na Rede Globo, em 1976, adaptada por Benedito Ruy Barbosa e estrelada por Cláudio Cavalcanti e Nívea Maria.
Sua trajetória também foi marcada por uma breve, mas produtiva passagem pelos Estados Unidos, entre 1942 e 1943, quando residiu em Nova Iorque e trabalhou como redator da rede NBC (National Broadcasting Company). Neste período, entrevistou alguns nomes importantes, incluindo um certo Charles Chaplin, que ganhou destaque no livro “OK, América”, que publicou após seu retorno ao Brasil, em 1945.
No mesmo ano, voltou a residir no Rio de Janeiro, onde, mesmo continuando a exercer outras atividades, passou a se dedicar mais à literatura, publicando alguns livros bem conhecidos, como “Omelete em Bombaim” (1946), “Rua do Sol” (1955), “Histórias urbanas” (1963), “A noite sem homem” (1968), entre outros.
A LITERATURA INFANTOJUVENIL
O escritor lençoense publicou “O sonho de Prequeté”, seu primeiro livro dedicado às crianças, em 1934, mas mergulhou de vez no universo da literatura infantojuvenil a partir de 1971, quando lançou “Memórias de um cabo de vassoura”, que abriu caminho para uma de suas fases mais produtivas, que resultou na publicação de quase 40 títulos.
IMORTAL
Em 1980, Orígenes Lessa havia se candidatado para suceder o recém-falecido escritor José Américo de Almeida na cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras (ABL), mas perdeu a eleição para o então senador José Sarney, que havia escrito apenas quatro livros, sendo “Marimbondos de Fogo” (1978) seu único sucesso literário.
O episódio foi visto com certa injustiça e interpretado como uma decisão política, mas os imortais trataram de ‘corrigir o erro’ no ano seguinte, quando o lençoense concorreu com Mário Quintana à sucessão da cadeira 10, após a morte de Osvaldo Orico. Lessa foi eleito no dia 9 de julho de 1981 e assumiu a cadeira que teve Rui Barbosa como fundador no dia 20 de novembro do mesmo ano.
Entre contos, ensaios, romances, reportagens e livros infantojuvenis, Orígenes Lessa publicou mais de 70 títulos e ocupou com todos os méritos a cadeira até o dia de sua morte, em 13 de julho de 1986, um dia depois de completar 83 anos, e ali foi velado no dia seguinte, antes de ter o desejo de ‘voltar para a casa’ atendido. Seu corpo ser trazido para Lençóis Paulista, onde também foi velado na biblioteca municipal e na Igreja Presbiteriana Independente. Foi sepultado no Cemitério Municipal Alcides Francisco no dia 15, sob os olhares e homenagens de centenas de lençoenses, órfãos de seu maior representante.
VIDA PESSOAL
Orígenes Lessa se autodeclarava tímido e teve a vida pessoal muito reservada. Foi casado duas vezes, a primeira com a prima-irmã, Elsie Pinheiro Themudo Lessa (1914-2000), cronista do jornal O Globo, com quem ficou entre meados da década de 1930 e final da década de 1940. Da união do casal nasceu o único filho biológico, o também jornalista Ivan Lessa (1935-2012), que lhe deu a única neta, Juliana Lessa, de 42 anos, radicada na Inglaterra desde 1978, quando se mudou com o pai e a mãe, Elizabeth Fiuza Lessa, para Londres.
O escritor lençoense também teve um filho adotivo, Rubens Lessa, do qual pouco se sabe. Algumas publicações afirmam que o filho teria nascido de uma breve relação com uma mulher chamada Edith Thomas, mas outras fontes, porém, relatam que, na verdade, ele apenas teria se sensibilizado com o caso de uma antiga empregada que teria sido mãe solteira, resolvendo dar seu sobrenome ao garoto.
Sua segunda esposa, Maria Eduarda de Almeida Viana Lessa (1937-2012), com quem se casou em 1966 e permaneceu até sua morte, era portuguesa. Os dois se conheceram em 1965, quando ela passou alguns dias no Brasil para trabalhar em um evento das comemorações dos 400 anos do Rio de Janeiro. Inicialmente o pai da moça, que era militar, foi contra o relacionamento pelo fato de Orígenes ser separado e 34 anos mais velho, mas isso não a impediu de regressar ao país para viver o grande amor.
O próprio Orígenes dizia que Maria Eduarda era sua grande companheira de todas as horas. Era ela que ouvia pacientemente ele ler em voz alta cada um de seus livros concluídos, para depois datilografar tudo para enviar à editora, já que ele só escrevia à mão. Também era ela que se sentava ao lado do esposo para separar cada documento e organizar as dezenas de livros que ele arrecadava para enviar à biblioteca de Lençóis, pela qual também desenvolveu um grande apreço.
Quando não estavam no apartamento onde moravam, no Rio de Janeiro, os dois viajavam para a cidade de Paraíba do Sul, na Serra Fluminense, onde tinham um pequeno sítio ao qual Orígenes recorria para matar a saudade do clima interiorano que tanto lhe lembrava Lençóis. Após a morte do esposo, ela seguiu morando no mesmo apartamento, preservando intacta toda a decoração do local, até também falecer, em 2012.
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