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Um café e um pão na chapa
Por Fernando Darcie, um viajante apaixonado por fotografias, padarias e discografias
Cotidiano 2016
O celular toca aquela melodia chata todos os dias no mesmo horário, e lhe desperta de seus sonhos off-line. Acorda! O mundo real tá aí, a web-rádio com as notícias da manhã informa a hora certa, e você outra vez está atrasado!
Os primeiros “bom dia” do dia você deseja e recebe no Whatsapp. E enquanto seu café é coado, o Facebook conta que uma amiga ficou noiva, que outro amigo está adorando as férias na praia, que o Eduardo Cunha aprontou mais uma barbaridade, que o Palmeiras tem 21% de chances de cair, que seu primo jantou ovo frito ontem e, finalmente, você tem uma crise de fofura com o filhote de gato que alguém que você mal conhece adotou. Encantado, você vai tomar banho ao som da playlist “Acordando no Pique” que o Spotify sugeriu.
No trânsito você responde rápida e astutamente por mensagens de áudio a toda a galera. Já no trabalho, se indaga de onde seu cunhado tira toda aquela pornografia que ele envia ao grupo em pleno horário comercial – ele não tem nada de útil pra fazer? Ai se sua irmã descobrisse a senha do celular dele...
Depois de passar o resto da manhã respondendo a e-mails, você pede seu almoço pelo aplicativo e, enquanto espera o entregador, joga um joguinho bobo perto da tomada – afinal, a hora do almoço é pra recarregar as energias, não é? A mesa da firma está cheia de pessoas, mas ninguém se lembra da milenar tradição humana de proferir palavras com a boca. Alguém então sorri e olha para a sua cara, pois lhe enviou um meme de um político com acusações graves. Você ri, posta isso no seu Facebook sem verificar a veracidade e passa o resto do horário de almoço discutindo online com os que comentaram esse seu post. Dá-lhe textão!
As horas depois do almoço demoram a passar. Você posta uma selfie no Instagram da sua cara de tédio, e manda Snapchats para que todos saibam como seu dia está monótono. Faltando poucos minutos para o fim do expediente, seu amigo lhe envia um “e ai” pelo whatsapp e você entende a mensagem: tem happy hour logo depois.
Você faz check-in no bar. Toma umas, posta a foto da cerveja. Ri de um vídeo que te mostram no Youtube. Pede batata frita, posta foto da batata frita. Opa! Que batata murcha! Hora de dar nota baixa pro estabelecimento no TripAdvisor e escrever outro textão sobre sua experiência horrível ali – você não quer que mais pessoas caiam nessa mesma roubada.
Você paga a conta e recebe uma SMS confirmando o valor passado no cartão. Mas ainda falta algo: o amor. Você se sente sozinho. Entra, então, no Tinder à procura de dar match em almas gêmeas num raio de 40km, mas o papo com pessoas desconhecidas não flui. Pelo Uber, você finalmente solicita a carona e mostra o caminho pro motorista no Waze. Enfim, sossego! Você fala com sua mãe pelo Skype, troca nudes com o crush pelo Snapchat, e coloca um filme no Netflix para pegar no sono. Antes de dormir, no entanto, você tuíta em maiúsculas “A VIDA NÃO É UM APLICATIVO”. 
OK.
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