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Um café e um pão na chapa
Por Fernando Darcie, um viajante apaixonado por fotografias, padarias e discografias
140 caracteres.
Tenho um certo pé atrás com essa geração que aprendeu a ler com a Internet e que, agora, já numa fase de fim de adolescência ou início da vida adulta, vêm formando sua opinião e recheando seu repertório político-filosófico de acordo com memes da internet e frases feitas em redes sociais, levando-as como verdades absolutas, sem sequer questioná-las, saber de quais obras ou correntes foram extraídas, ou tentar contextualizá-las ou contrapô-las.
Explico: antes do advento das redes sociais, mesmo com a internet já existindo, só tinha acesso a conteúdos e discussões sobre filosofia, sociologia, política, economia e outras grandes questões da humanidade quem realmente às buscasse em livros, jornais, revistas ou até mesmo sites especializados. O pensamento e a opinião, portanto, eram frutos de um papel ativo do sujeito, que conseguia beber de fontes mais confiáveis e claras do que as atuais. Em outras palavras, os interessados em um assunto tinham que se interessar a ponto de dispender tempo buscando sobre o mesmo, e o encontrava em lugares específicos para este entendimento.
Com o advento das redes sociais, aconteceu algo inédito e com consequências ainda não totalmente compreendidas: notícias importantes e textos sérios passaram a dividir, em um mesmo site, as timelines e a atenção do leitor com piadas, fotos de amigos e bichos de estimação, vídeos, memes, esportes, pornografia e todo tipo de conteúdo. São milhares de manchetes todos os dias – e a guerra por audiência, pelos cliques que geram retorno a quem publica algo, tornaram essas timelines verdadeiras arenas de espetáculo, onde as manchetes mais fantásticas ou absurdas “merecem mais” o clique do leitor do que assuntos profundos, de pouco apelo visual ou de leitura demorada e difícil. Somam-se a isso diversas outras peculiaridades da vida moderna, como a queda na capacidade de concentração das pessoas, que em um mundo tão dinâmico raramente leem mais do que manchetes ou os tradicionais 140 caracteres do Twitter; as interrupções (ruídos) que atrapalham ainda mais essa concentração, como Whatsapp e as intermináveis notificações de aplicativos e joguinhos; a busca das pessoas, em tempo de ânimos acirrados no debate político, em reforçar suas verdades e ridicularizar ou ignorar pensamentos contrários; e a ânsia de cada pessoa por se destacar como indivíduo (isto é, agradar aos seus seguidores e ter likes) em meio a toda essa enorme carga de informações...
Num país cujo currículo escolar abrange, majoritariamente, conteúdos defasados, desinteressantes, com uma dinâmica de ensino antiquada e uma carga horária que mal ocupa um período do dia, o sopão resultante destes ingredientes, ironicamente, é uma geração de pseudo-profissionais de diversas áreas (as mais comuns, Ciências Sociais, Economia, Medicina e Direito). São “ortopedistas” que aprenderam a cura para todas as doenças sem sequer saber o nome de meia dúzia de ossos; são “Marxistas” que acham bonito ser cabeludos e rebeldes, mas que não fazem a menor ideia de como as relações de trabalho funcionam na prática; são “Liberais” que só sabem gritar “Fora Dilma”, “Fora PT” e “Abaixo o Estado”, mas que não conseguem distinguir o que é de responsabilidade do Governo Federal, Estadual, Municipal, do setor privado ou reflexo de conjuntura global; são “juízes” que dão sentenças (tortura seguida de pena de morte, na maioria das vezes) antes de se dar ao luxo de ler a primeira página de uma notícia policial. 
Atualmente qualquer fato já chega criticado, avaliado e julgado para o leitor. Daí a interpretação radical desse mesmo fato é o primeiro contato que se tem com diversos temas. Um exemplo muito comum: muitos moleques conhecem o Pelé apenas como um péssimo ser humano, já que a primeira coisa que leram sobre ele é que ele é um canalha por só ter reconhecido uma filha após esta entrar na justiça. Esse erro na vida dele formou uma imagem final e absoluta do Rei, repetida aos mil ventos, e tornou-se mais importante do que a própria história dele como o maior jogador de futebol da história, ou da sua atuação em projetos sociais desde longa data.
O mundo sem as redes sociais era um bocado diferente, e talvez quem viveu nessa época tenha uma noção diferente sobre a importância e a credibilidade que devemos dar ao que recebemos nas redes sociais (será que ainda conseguimos preservar essa noção?). Mas a geração dos “milleniums” não teve essa oportunidade, pois já cresceu online. Fico imaginando, portanto, como será o mundo comandado por pessoas de apenas 140 caracteres.
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